A herança Templária em Portugal: uma viagem por algum do património edificado

Castelo dos Mouros - Sintra

A Ordem do Templo foi fundada em 1118 ou 1119 e extinta em 1312. Conjugava o ideal do monge com o exercício da guerra. Após o seu reconhecimento no Concílio de Troyes, em 1128-9, os freires dedicaram-se à proteção dos peregrinos ao longo dos caminhos até aos lugares santos e tiveram um papel crucial na Reconquista Cristã.

A Reconquista Cristã ter-se-á iniciado em 1064, mas a entrada da ordem religioso-militar no Condado Portucalense é anterior. A milícia ter-se-á apresentado aquando a sua fundação, pela primavera de 1128, o ano em que a Ordem foi estabelecida.

Em Portugal, e no contexto da Reconquista, procurou-se restaurar as antigas dioceses dos reinos suevo e visigodo. Braga assume em 1071 um papel político e eclesiástico no Condado, evidenciado pela sua entrega ao arcebispo em 1112, por parte do Conde D. Henrique, que escolheu a catedral para sua sepultura. A diocese do Porto foi restaurada em 1112-13.

Já em 1122, os “freires do Templo” possuíam uma herdade em Braga, a que se seguiram outras aquisições como, em 1125, propriedades a norte do castelo de Santa Maria da Feira. Entre 1126-28, D. Teresa terá concedido ao Templo a área de Fonte da Arcada, embora esta não tenha vindo a constituir uma base militar relevante. Em 1128, foi doado o castelo de Soure e um vasto território envolvente, o que sugere que terão sido prestados serviços anteriormente, evidenciando a utilidade da Ordem. Ali, teriam surgido os castelos de Ega, Redinha e Pombal, que se automatizaram em Comendas separadas, assim como várias igrejas, sempre no âmbito da missão de propagação do Cristianismo.

Castelo de Pombal
Castelo de Pombal

Num tempo em que os ataques dos almorávidas eram constantes, D. Afonso Henriques reconhecia a importância da milícia e terá procedido a uma série de concessões à Ordem, à medida que os territórios iam sendo anexados. Terá então confirmado a doação de Soure (1129), ano da conquista do castelo de Almourol, e em 1131 muda-se de Guimarães para Coimbra. Nesse ano inicia-se a construção do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e em 1135 a fundação do castelo de Leiria.

Os castelos transmontanos de Mogadouro e Penas Róias e, da Beira, Longroiva, terão sido recebidos em 1145.

Com a queda de Santarém em 1147, D. Afonso Henriques doou os direitos eclesiásticos da vila. A resolução de um conflito com o bispo de Lisboa, que reclamava aqueles direitos, teve como consequência a renúncia de Santarém pelo Templo, à exceção da Igreja de Santa Maria da Alcáçova, e a doação régia de Ceras (Tomar) já em 1159.

Com a ajuda de cruzados ingleses, vindos do norte da Europa com a missão da Segunda Cruzada, rumo à Palestina, o cerco ao castelo de Lisboa termina também em 1147. A diocese terá sido restaurada pelo cruzado Gilberto de Hastings, o primeiro bispo após a Reconquista de Lisboa e que se encontra sepultado na Sé. A tomada de Lisboa levou à rendição dos castelos de Sintra, Palmela e Sesimbra, tendo caído ainda outros castelos no Tejo e Zêzere. Todas estas movimentações ocorreram em clima de tréguas entre D. Afonso Henriques e o Califa. Em agradecimento pela colaboração, foram doados à Ordem propriedades em Loures (1149) e em Sintra (1151 ou 1152), em que se destacam as Igrejas Matriz e de Santa Maria, respetivamente.

Sob o mestrado de D. Gualdim Pais, terão sido fortificados em 1156 os castelos de Ega e Pombal. No ano seguinte, foram doados 8 moinhos entre Torres Novas e Santarém. Entre 1160 e 1169, é edificado o castelo de Tomar, com alambor, um exemplo da inovação militar templária. Na década de 60 será edificada a Igreja de Santa Maria dos Olivais (fruto do aproveitamento de um mosteiro beneditino do século VII) e reedificado o castelo de Seda.

Castelo de Tomar
Castelo de Tomar

Além de parte do espólio proveniente das conquistas, os Templários continuaram a receber gratificações, como os terrenos que exigiam defesa contra os sarracenos nas fronteiras do Tejo, e a leste, frente a Leão e Castela. As doações ao Templo de Idanha-a-Velha, Monsanto e provavelmente Segura terão ocorrido em 1165, que ali edificaram os castelos. A documentação relativa à presença da milícia em Castelo Branco remonta àquele ano. Dois anos depois, Geraldo Sem Pavor conquistaria Monsanto. Em 1169, D. Afonso Henriques doou a terça parte das terras que conseguissem conquistar a sul do rio Tejo, algumas com importância militar, a fim de se prosseguir com a Reconquista. Em 1169, o rei doou os castelos de Cardiga e do Zêzere e suas propriedades.

Possuindo um papel determinante na região fronteiriça, entre 1171 e 1175, a milícia edificou as torres de menagem nas fortalezas de Soure, Pombal, Penas Róias, Longroiva, Penamacor e Almourol. Os castelos do Alto Douro foram trocados por terrenos na Beira Baixa. Gualdim Pais terá restaurado os castelos de Almourol e Cardiga (1171) e realizou obra nas fortalezas de Monsanto e Idanha, através das quais acautelou a defesa do vale do Tejo. Esta linha de defesa assumiu um papel determinante no século XII face aos almóadas, aquando o cerco de seis dias ao castelo de Tomar pelos almóadas, em 1190.

No reinado seguinte, D. Sancho I confirmou a doação a Idanha-a-Velha em 1197 por constituir uma área difícil de manter, mas Mogadouro e Penas Róias voltaram à coroa. Em 1198, os Templários receberam Nisa-a-Velha e no ano seguinte, Ródão. No entanto, o Alentejo não estava destinado ao Templo, mas sim a outras ordens religioso-militares. Em 1203, é doada Idanha-a-Nova e em 1206, Dornes. A construção da Torre de Dornes terá sido encomendada por Gualdim Pais na segunda metade do século XII. Castelo Novo é mencionado em testamento do seu alcaide em 1208 como sendo possessão da Ordem à data. Por D. Afonso II, os Templários receberam a terra de Cardosa, em Castelo Branco. Em 1215, é doado o Castelo de Coruche, assim como vinha e casas em Évora. Em 1218, Alcácer do Sal foi conquistado e o foral concedido a Proença-a-Velha, ambos pela Ordem. Nos anos seguintes foram sendo atribuídas as cartas a Vila de Touro, Ega, Idanha-a-Velha, mas em 1244, D. Sancho II volta a doar ao Templo os direitos de Idanha e de Salvaterra do Extremo, junto à fronteira. O castelo de Rosmaninhal terá sido construído depois de 1237, após o povoamento da vila pelos Templários. O período da Reconquista terminou em 1249, com a anexação de Faro. Ainda assim, em 1297, D. Dinis doou o padroado de igrejas em Mogadouro, Penas Róias e Portalegre, e casas junto a Sabugal. Em 1304, concedeu ou confirmou a doação do castelo e vila de Penha Garcia, situada mesmo na fronteira beirã, e fez uma permuta de bens, recebendo uma lezíria de Santarém, o padroado de Trancoso e benefícios face a Coimbra, dando o padroado de igrejas de Alvaiázere, Vila de Rei e Ferreira do Zêzere. Poderá também ter sido no seu reinado que terá sido edificado o castelo de Montalvão.

Castelo de Montalvão
Castelo de Montalvão

Ao longo do tempo, foram sedes da Ordem Braga (1125(6?)-1128), Soure (1128-1147), Santarém (1147-1159), Tomar (1160-1214) e Castelo Branco (1214-1314). Os vários forais que foram sendo concedidos traduziam o esforço aplicado no povoamento e organização administrativa. Em 1297 foi assinado por D. Dinis o Tratado de Alcanizes, em que se estabelece definitivamente a fronteira de Portugal, a mais antiga da Europa. Após o período descrito, outras doações foram concedidas, mas tais não alteraram o cenário templário no território que se tornaria mais tarde, com a Ordem de Cristo, a Nação Portuguesa. E então, uma nova história foi escrita.

Mafalda Nascimento, Secretária-Geral da Associação Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Jerusalém (OPCTJ)

Referências

  • Armas, D. (2015 (1510)). O livro das fortalezas. Casal de Cambra: Caleidoscópio.
  • Capêlo, J. M. (2008). Portugal Templário – A Presença Templária em Portugal. Sintra: Zéfiro.
  • Costa, P. P. (2013). Templários no condado portucalense antes do reconhecimento formal da ordem: O caso de Braga no início do séc. XII. Revista da Faculdade de Letras, CIÊNCIAS E TÉCNICAS DO PATRIMÓNIO, 12, 231-243.
  • Costa, P. P. (2019). Templários em Portugal: Homens de religião e de guerra. Lisboa: Manuscrito Editora.
  • Nunes, A. P. (2013). Castelos Templários raianos – Castelos de Portugal. Idanha-a-Nova: Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.
  • Oliveira, N. V. (2010). Castelos Templários em Portugal. Lisboa: Ésquilo.
  • Pimenta, F. T. (2019). Os Templários em Soure: 1128-1309. Soure: Município de Soure.

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