A sinuosidade das estradas que hoje percorrestes para chegar a Vinhais facilmente se dissipou se deixastes o olhar perder-se na paleta polícroma e inebriante com que o alvor da primavera matizou os montes e vales atravessados e que José Saramago, na sua Viagem a Portugal, apelidou de primeira porta do Paraíso [1].
O traçado que rasga e serpenteia o Parque Natural de Montesinho é ladeado por uma riqueza e diversidade de flora infindável e única, tornando o que poderia ser uma viagem penosa, num passeio encantador. A vista rende-se ao formoso panorama que o relevo paisagístico deixa vislumbrar.
Por entre, urzes, calças de cuco, arçãs, pascoelas e violetas, ressaltam à vista as estevas – láudano ou xara, dependendo das regiões -, elegantes e viçosas, com o verde-escuro brilhante da ramagem aromática e resinosa quebrado por graciosas e delicadas flores, de uma candura enternecedora, exibindo cinco frágeis pétalas; algumas delas mantêm uma sedosidade alvinitente, outras são manchadas por uma pequena pinta púrpura e outras ainda, mais raras, apresentam seis ou sete pétalas pintalgadas.
Segundo a tradição oral das gentes deste pequeno, mas formoso rincão da província transmontana, comum a várias regiões do país, quando Jesus fez a Via Dolorosa, carregando a cruz até ao Calvário, o sangue que escorria da Sua cabeça, cravada de espinhos, caiu sobre as estevas floridas que nasciam nas bordas do caminho, gravando nas de cinco pétalas as cinco chagas de Cristo. Algumas – as que mais raramente se veem, com mais do que cinco pétalas – foram salpicadas, também, com as lágrimas da Mãe de Cristo; e outras mantêm-se imaculadas porque não foram pinceladas pelas gotículas do sofrimento da Mãe nem do Filho. Mistérios da natureza e do criador que povoam o imaginário popular…
Vem, portanto, de longe a invocação e devoção popular por Santa Maria, Mãe do Redentor, encontrando-se profundamente arreigada em todo o mundo católico.
O culto prestado à Virgem foi largamente difundido, existindo imagens praticamente em todos os templos, sob inúmeras invocações, devoções, títulos; sentimento traduzido também em nomes, topónimos, hagiotopónimos, contos, lendas, romances, cantares, verónicas, relicários, registos, escapulários, ex-votos, etc.
Em Portugal existem, segundo aturada pesquisa de Virgílio do Vale, cerca de 800 invocações distintas de Nossa Senhora [2].
Não iremos neste dia referir-nos às possíveis reminiscências de primitivos cultos ao feminino e ritos dedicados ao feminino de que as várias esculturas pré-históricas da deusa Vénus dão testemunho, ou a Ísis, Afrodite, Dea Matrona, entre muitas outras que poderíamos citar; apenas ao culto da Virgem Mãe a que António Mourinho se refere da seguinte forma: As pinturas nas Catacumbas, ingénuas e rústicas, deixam-nos ver que o culto da Mãe de Deus era um facto já nos séculos II e III, mas nada nos faz dizer que o culto litúrgico de Maria no Ocidente seja anterior ao século IV [3].
Nem iremos debruçar-nos sobre o culto a Maria Madalena por não ser esse o propósito desta nossa intervenção, não descurando que, segundo a tradição cátara, se terá refugiado no sul de França depois da crucificação de Jesus Cristo. No entanto, importa referir o papel predominante da mulher na sociedade cátara, com deveres e direitos iguais aos do homem.
Talvez por essa razão se tenham encetado perseguições e torturas cruéis aos cátaros, pretendendo eliminá-los, fazendo emergir um culto a outra Maria, a Mãe de Jesus afirmando que era esta a venerada pelos fiéis.
De acordo com Margaret Starbird, todos os cristãos honravam a mãe de Jesus e encontravam consolo na sua ajuda. O mais proeminente dos seus santuários era a catedral de Chartres, local de um antigo culto da Madona Negra, centrado em redor de uma estátua conhecida como «Nossa Senhora Subterrânea, localizada numa gruta por baixo do edifício [4]. Local de culto desde tempos pré-cristãos.
Ainda segundo a mesma autora, citando o estudioso místico Louis Carpentier, teriam sido os cavaleiros templários os responsáveis pelo desenho e construção daquela e outras catedrais francesas entre 1130 e 1250.
É sabido que os Cavaleiros Templários eram o braço armado da Ordem de Cister cuja primeira igreja, fundada por Bernardo de Claraval, no ano 1098, numa pequena clareira de Cister, era um singelo santuário de madeira, dedicado a Nossa Senhora, precisamente no local onde viria a nascer, anos mais tarde, um dos maiores centros de expansão espiritual que a Europa medieval conheceu.
Talvez essa devoção o tenha levado a aludir à Virgem Maria nos pontos 13, 17, 20, 47 e 74 da Regra Primitiva dos Cavaleiros Templários [5], cuja autoria lhe é atribuída, sendo aquela considerada a Mãe da Ordem.
São Bernardo dedicou inúmeros sermões à Mãe de Jesus, tornando-A patrona de vários mosteiros, tendo a sua profunda devoção passado para a tela pela mão de pintores medievais que o retrataram a receber um esguicho de leite diretamente de um seio de Nossa Senhora, cena imortalizada pelo célebre Murillo num quadro patente na Real Galeria de Madrid.
Mas, voltando a esta região e ao cerne desta intervenção, após análise às Memórias Paroquiais de 1758, referentes ao Distrito de Bragança [6], pudemos constatar que o culto à Virgem Maria se encontrava profundamente difundido por toda a diocese com uma expressividade muito significativa.
Existiam, à época, 79 Irmandades e Confrarias dedicadas à Virgem, a maioria sob a invocação de Nossa Senhora do Rosário, sendo que quase 50% daquelas, mais concretamente 31, estavam sediadas em paróquias que atualmente integram o concelho de Vinhais.
Numa análise mais pormenorizada às Memórias Paroquiais, encontrámos 450 invocações da Virgem nas capelas, igrejas e ermidas identificadas, das quais 55 se referem, também, a este concelho, sendo o orago em 10 das 56 paróquias de então. Muitas mais havia e há, uma vez que os párocos que respondiam ao inquérito apenas referiam as patronas dos altares das igrejas.
Temos como exemplo este sumptuoso templo em que nos encontramos, cujo orago é Nossa Senhora da Encarnação, representada por uma imponente escultura barroca no cimo da tribuna do altar-mor. Além desta, encontra-se sotoposta a um original relicário de parede, deitada, de mãos postas, Nossa Senhora da Boa Morte e, no altar lateral direito, uma preciosa e valiosa representação de Nossa Senhora de Fátima, datada de 1964, assinada pela oficina Ferreira Thedim, os escultores da imagem original que se encontra na Capelinha das Aparições na Cova da Iria; num dos nichos laterais da nave da igreja, Santa Ana ensina Nossa Senhora a ler e, na capela que se encontra à esquerda do átrio de entrada, uma expressiva imagem de Nossa Senhora das Dores dentro de um oratório, aos pés de Cristo crucificado – o Bom Jesus dos Perdidos -, que pudestes observar na visita ao Museu de Arte Sacra.
Nesse espaço musealizado, outrora as casas da Ordem III de São Francisco, encontra-se exposta uma magnífica escultura de Nossa Senhora da Conceição, de origem indo portuguesa, em marfim, datada do séc. XVI, e uma bandeira processional da Santa Casa da Misericórdia de Vinhais – fundada no séc. XVI -, que numa das faces exibe uma Pietá e, na outra, a Nossa Senhora da Misericórdia.
A título de curiosidade, o fundador do Convento dos Missionários Apostólicos Franciscanos, em cuja igreja nos encontramos, e da Ordem III de São Francisco de Vinhais, contígua, foi José de Morais Sarmento, Fidalgo de Suas Majestades, mestre de Campo de Auxiliares e Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, conforme inscrição epigráfica da lápide funerária de 1752, incrustada na parede lateral esquerda desta igreja, condição esta confirmada pela insígnia da Ordem de Cristo, pendente do seu peito, num retrato a óleo, datado do séc. XVIII, que figura no Museu de Arte Sacra.
Tereis, porventura, reparado também na imponente fachada de todo este edifício que integrava o antigo Convento de São Francisco, mais tarde Seminário de Nossa Senhora da Encarnação; e se não o fizestes contemplai-a à saída do nosso capítulo.
A encimar a vidraça que deixa entrar luz para o cadeiral do coro da igreja, observa-se uma escultura em granito representando a cena da Anunciação/Encarnação e cuja origem se deve à miraculosa intervenção da Virgem, num episódio que reproduzimos a partir do que ouvimos do povo:
Aquando da construção da Igreja Grande do Convento de São Francisco, encontrava-se um canteiro num andaime a assentar as cantarias, na cornija da fachada do edifício. Num descuido, escorregou e caiu daquela altura. Tendo sofrido graves ferimentos, prometeu à Nossa Senhora da Encarnação que lhe ofereceria uma escultura para colocar no local onde se encontrava no momento do acidente.
Curado de tamanha desgraça, esculpiu num bloco de granito uma formosa representação da Virgem, que ali se encontra aos olhos de quem chega.
Mas são várias as lendas que perduram na memória dos vinhaenses e que dão testemunho da intervenção divina da Senhora e da sua importância no devocionário popular desta região:
Nossa Senhora dos Remédios, em Tuizelo:
Em dia de verão canicular andava uma rapariga, muda de nascença, a pastorear o gado no lugar de Pereiros junto à ribeira de S.ta Maria, quando viu baixar da encosta uma senhora que pela sua inexcedível beleza lhe pareceu mais do ceu que da terra; seu rosto resplandecente como um clarão boreal confundiu a menina de tal sorte que a fez cair por terra assustada; a senhora, porém, aproximando-se, disse-lhe: «não tenhas mêdo, eu sou a Virgem dos Remédios! Vem comigo que te hei-de dar água para matares a sêde.» Dali a alguns passos, a meio da encosta, uma fonte brotou do chão ressequido pelo verão ardente, e a Virgem, inclinando a fronte, colheu a água nas mãos, que deu à pastorinha, desaparecendo em seguida. À noite, no regresso com o rebanho ao redil, a menina ia pensando consigo como havia de contar ao mundo tão maravilhoso acontecimento; e, qual não foi o seu espanto, ao transpor o limiar da porta da cozinha, sentiu a língua desprender-se, correndo alegremente a dizer à família o que tinha visto, no meio da grande admiração dos circunstantes.
A notícia correu veloz de terra em terra, o povo das cercanias afluía a admirar o milagre. No sítio da nascente, a que mais tarde chamaram a hortinha do Conde, existe uma fonte de granito, aonde, durante muitos anos, os fiéis iam beber a límpida água que dela mana levando-a em garrafas como antídoto de certas moléstias.
Decorreram alguns dias sem nova manifestação; e num sábado, estava a pastorinha a passar a sesta no sítio do Pinheirez, à Ribeira, quando a Virgem lhe apareceu; a qual a tomou pelo braço e levou até junto de um fio de água que nesse instante fez brotar da terra, dando-lhe de beber com as próprias mãos em forma de concha. Agora, sim, agora já podia agradecer-lhe; e na sua linguagem simples e rude entoou um hino de louvores, preguntando-lhe porque lhe fazia tamanho favor. – «E porque, disse, é grande a indiferença do povo para comigo! Vai, e dize-lhe que não trabalhem ao domingo e não faltem à missa.» E, de repente, a visão desapareceu. A terceira aparição foi novamente na ribeira de S.ta Maria, junto do velho templo da Virgem dos Remédios, de que nada resta a não ser o chão relvoso, vendo o povo em uma cova ali existente o logar dos alicerces, cova que, dizem, nunca mais criou herva para memória eterna.
Estava a menina a comer a merenda quando a Virgem lhe apareceu no meio de uma nuvem de côres polícromas como o arco iris; e ela, em transportes de júbilo, ajoelhou, oferecendo-lhe, num rasgo de inocência, da merenda; no final do repasto, a Mãe de Deus disse-lhe: «Diz ao povo que é meu desejo que o meu templo, aqui tão exposto às tormentas, seja mudado para o campo do cimo do povo, para o logar onde virem um circulo de neve, o qual também indicará o tamanho.» E foi-se, não sem deixar no regaço da pastorinha, atónita, algumas moedas de ouro para auxílio da construção do novo templo [7].
Importa dar nota de que a Festa de Nossa Senhora dos Remédios, em Tuizelo, é a maior romaria do concelho, celebrando-se a 8 de setembro, sendo precedida pelas novenas nas quais é entoado, diariamente, um cântico dedicado à Senhora e exclusivo daquela localidade:
| Minha Virgem dos Remédios Nesse templo em que habitais Ouvireis nossos gemidos Nossos suspiros e ais. |
Minha Virgem dos Remédios Muito deveras amais A quem é vosso devoto E nunca o desamparais |
| Minha Virgem dos Remédios Aqui fugindo do mundo Vossos louvores cantamos Com respeito o mais profundo. |
Minha Virgem dos Remédios Daqui jamais sairemos Sem conseguir o perdão Das culpas que cometemos. |
| Minha Virgem dos Remédios Minha flor, minha açucena Fazei que todos colhamos Fruto da vossa novena. |
Minha Virgem dos Remédios Neste mundo de traições O vosso favor nos livre Dos seus erros e ilusões. |
| Minha Virgem dos Remédios Nesta devota união Acharemos certamente Alívio e consolação. |
Minha Virgem dos Remédios Mãe de Deus e também nossa Por vós a Deus chegaremos Em jornada tão perigosa [8]. |
| Minha Virgem dos Remédios Mãe de ternura e piedade Estes filhos vos procura Com toda a sinceridade. |
Nossa Senhora do Rosário – Cabecinho, na Moimenta:
– Anda, chega-te à frente! Se não tens os quinhentos mil réis, desenrasca-te! Perdeste, agora paga, se não queres que te fique mais cara a brincadeira! – ameaçou um dos adversários que acabara de o derrotar na lerpa.Os jogos de azar não eram permitidos, mas todas as noites, até altas horas da madrugada, os homens da Moimenta e de algumas povoações vizinhas, desafiavam a autoridade juntando-se à jogatina na taberna que, por sinal, não distava muito do posto da Guarda-Fiscal.
As cartas ajudavam a virar mais um copito de tintol e a passar o tempo. Jogava-se à sueca, à vermelhinha, ao chincalhão, ao sete e meio, à batota e à lerpa.
Alguns, aqueles que tinham a sorte do seu lado, aliada a alguma habilidade para a trafulhice, ganhavam, mas eram mais os azarados, aqueles que perdiam. E era a doer!
O vício era tal que cegava. Por vezes, arruinava-se uma família, uma casa, que via o seu património inteiramente delapidado pelo jogo.
Que fazer se já tinha despejado a carteira? Não lhe restava um único tostão!
– Se me deixares ir a casa trago-te um presunto! Dou-te a minha palavra de honra – arriscou, olhando para o adversário que tinha vindo de uma aldeia próxima.
– Mexe-te, anda lá! – anuiu o sujeito, acreditando no pobre que derrotara. A palavra é o valor mais precioso que um homem tem, por isso estava certo que ele voltaria.
Morava perto, na rua do Cabecinho, mesmo ao lado da velhinha capela de Nossa Senhora do Rosário.
Tentou entrar em casa sem fazer muito barulho. Não queria acordar a mulher, a quem não agradaria saber que iria ficar sem mais um presunto e outra vez por causa do jogo. Mas como um azar nunca vem só, ela ainda não fora à cama. Estava ao lume, sentada numa tropeça, descalça, a fiar na roca.
– Já não era sem tempo! – resmungou, pensando que ele já vinha para a deita.
– Mulher! – começou, olhando-a com algum receio. – Tenho que levar esse presunto, senão ainda me desgraçam. Eu vou deixar o jogo, é a última vez!
Pendurado numa trave, por cima da cabeça da mulher, o único presunto que sobrava de derrotas anteriores.
– Não são eles que te vão desgraçar! – exclamou a mulher. – És tu que te vais desgraçar, a ti e a nós, às contas desse maldito vício. Que o diabo me leve vestida e calçada se tu levares o presunto! – rematou, levantando-se de rompante.
O marido não quis saber! Subiu ao escano e, com uma navalha que sacou do bolso, cortou o baraço que prendia o presunto. O esforço da mulher resultou inglório, pois nada conseguiu contra os fortes braços do homem.
Saiu de casa com o presunto, deixando, atrás dele, o violento estrondo da porta a bater.
Outro estrondo, ainda mais ruidoso, ouviu-se detrás da mulher. Voltou-se, assustada. Defronte das labaredas aparecera, como que por magia, uma figura sinistra e temerosa.
– Calça-te, mulher! Calça-te e anda! – ordenou.
Aflita, olhou-o de cima abaixo e verificou que tinha pés de cabra. Ficou sem pinga de sangue, mas ainda teve forças para recorrer à Virgem do Cabecinho de forma suplicante:
– Ó Senhora do Rosário, minha vizinha, valei-me nesta aflição, que eu prometo iluminar-vos até à quinta geração!
Um súbito e ofuscante clarão, seguido de um estampido semelhante ao que ouvira momentos antes, fez sumir a terrível criatura no meio das labaredas da fogueira.
O milagre salvou a alma da pobre mulher que, ingenuamente, tinha recorrido ao diabo numa hora de agonia.
O homem redimiu-se e pediu perdão à mulher. A partir dessa noite, deixou o jogo e a paz voltou a reinar naquele lar.
Mesmo depois da ruína da capela, convertida em residência habitacional e comércio, uma lamparina de azeite continuou a brilhar em frente à sagrada imagem da Nossa Senhora do Rosário, na igreja paroquial de São Pedro, até se cumprirem as cinco gerações daquela família [9].
Nossa Senhora da Saúde, em Vale de Janeiro:
No último domingo de agosto, inúmeros fiéis acorrem ao alto do fraguedo onde se localiza a capela de Nossa Senhora da Saúde para uma grande romaria. Diz-se, em toda a região, que esta é uma das sete irmãs que se avistam e diariamente se falam. São as restantes seis: Senhora da Luz, em Constantim, e Senhora do Naso, ambas no concelho de Miranda do Douro; Senhora da Serra (Nogueira, Bragança); Senhora da Assunção (Vilas Boas, Vila Flor); Senhora das Neves (Serra de Bornes, Alfandega da Fé); e a Virgem do Castelo (Prenha, Província de Salamanca – Espanha).
No termo de uma localidade vizinha de Vale de Janeiro, numa fraga, vê-se um orifício cuja origem se crê ser de um sombreiro sob o qual Nossa Senhora descansou à sombra durante a sua fuga.
A travessia de Nossa Senhora pelo território vinhaense é contada em diversas localidades. Também em Soeira terá passado e deixado a marca do seu cajado numa fraga a que subiu para avistar as suas irmãs.
É curioso como a lenda coloca este território no itinerário de Nossa Senhora e como o povo acredita, vendo em determinadas insculturas rupestres as marcas das ferraduras da burrinha que a transportava.
Como testemunho dessa passagem bíblica da fuga para o Egito, perduram as marcas cravadas em rochedos de várias aldeias do concelho – Nuzedo de Cima e Travanca, entre outras – e que, segundo a crença, estariam colocadas ao contrário para enganar os perseguidores.
Nossa Senhora da Penha de França, em Rebordelo:
Naquela manhã, o pingue, pingue da chuva que batia nas vidraças era abafado pela melodia harmoniosa da gaita-de-foles que dava a alvorada pelas ruas de Rebordelo.
Enquanto na maior parte das casas se iniciavam os preparativos para a festa do nascimento de Cristo, o Natal, em casa da pequena Sara faziam-se alheiras que haviam de curar ao fumo, pendentes dos lareiros, por cima do lume.
Não eram alheiras iguais às da maior parte das casas da região. A mãe de Sara já tinha cortado o pão, em finas fatias, acrescentado alho e colorau, faltando apenas juntar as carnes; galinha e outras aves, pois carne de porco não era permitida naquela casa.
Esta seria a única forma que tinham para mostrar ao resto do povo que também comiam fumeiro. Assim, ninguém desconfiaria que se tratava de mais uma família judaica que, como tantas outras, em Rebordelo tinha procurado refúgio e que todos os dias rezava a antiga oração:
“Diante de bos Sr / venho a empesar a rezar / Meu Deus me dai Aucillio/ Para bos Louvar em grandecer / em Nome do sr Adonai Amem.” [10]
Estariam, dessa forma, a salvo do terrível tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, que prendia todos aqueles que demonstrassem professar outra religião que não fosse a cristã. Muitos amigos e familiares seus já tinham sido levados e julgados.
Como era dia de fumeiro em casa da Sara, também ninguém iria estranhar não participarem na festa das Varas e na Encamisada, que acontecia dias 25 e 26, até porque ela dizia às amigas que tinha medo dos caretos e das suas assustadoras máscaras de couro com os olhos arregalados, e daqueles fatos, de chita ou seda, às cores, cheios de franjas, guizos e campainhas.
Assim como a Festa de Santo Estêvão, também o Ramo, que decorria nesse dia, lhes era proibido. Nele se representava o Ato da Criação, razão pela qual também não iriam assistir à encenação feita pelos habitantes da povoação.
Durante a tarde, o pai de Sara, o Sr. Josué Abraão, tinha-lhe pedido para que o acompanhasse a uma propriedade que possuíam, a cerca de 1 quilómetro da aldeia, onde trazia um rebanho a pastar. Era precisamente junto a uma fraga na qual se viam as marcas de umas ferraduras gravadas e onde o povo andava a erguer uma pequena capela.
Contava-se que uma pastorinha da aldeia ali teria visto Nossa Senhora a cavalo numa burrinha, a quem teria dito ser a Nossa Senhora da Penha. Tinha-lhe pedido para que as pessoas de Rebordelo rezassem por ela naquele local.
E um fio de água que havia feito brotar de entre as pedras, tornado numa fonte de água milagrosa, iria curar as maleitas que assolassem a população.
Chegados ao local, enquanto o Sr. Josué recolhia o gado para dentro da corriça, onde pernoitaria e ficaria protegido do frio e dos ataques dos ferozes e famintos lobos, a Sara sentou-se num pequeno tronco, revestido de musgo esverdeado, que ali se encontrava caído.
Pouco depois, o som de umas ferraduras a tocar as pedras do chão denunciava o aproximar de um cavalo, despertando a atenção da rapariga.
A pequena Sara foi então surpreendida por uma burrinha que surgiu à sua frente e que, no seu dorso, transportava uma Senhora, coberta por um grande manto brilhante como o sol.
Imóvel, Sara não desviou os olhos daquela linda Senhora, que nunca tinha visto, surgida do meio do nada.
Abrandando a marcha, a burrinha passou ao seu lado. A Senhora dirigiu o olhar para Sara, esboçando um leve e ternurento sorriso. Continuaram e, poucos metros à frente, ao chegar junto de um rochedo, uma qualquer estranha magia abriu a fraga ao meio e desapareceram, misteriosamente, no seu interior.
Sara permanecia imóvel e assustada com a cena que acabara de presenciar.
Tudo tinha acontecido tão rapidamente que nem tempo ou reação tivera para chamar pelo seu pai, que se encontrava dentro da corriça.
Quando lhe contou o que tinha acabado de acontecer ele mal queria acreditar. Mas o Sr. Josué não tinha a filha por mentirosa, aliás, tinha plena confiança nela. E o povo todo falava da tal Senhora que tinha aparecido à pastorinha. E as tais marcas das ferraduras eram verdadeiras. Ali estavam, bem gravadas naquela fraga!
Regressaram imediatamente a casa para contar à mãe de Sara aquele episódio que tinha tanto de fascinante como de perturbador.
Afinal a história da pastorinha, das ferraduras e da burrinha era real. A Sara também tinha visto a Senhora com os seus próprios olhos!
O acontecimento marcou profundamente a família da Sara, e, nesse mesmo dia, o seu pai decidiu juntar-se à população para auxiliar na construção da pequena capela, dedicada à Nossa Senhora da Penha. Ali se passariam a celebrar missas regularmente e, no dia 15 de agosto, havia uma grande festa em sua honra.
A partir daquele dia, sem que a população alguma vez tivesse desconfiado do contrário, Sara e a sua família converteram-se, tornando-se nos mais recentes cristãos de Rebordelo [11].
Nossa Senhora da Assunção, em Vinhais:
Quando o general espanhol Pantoja sitiou Vinhais, durante as guerras da restauração, em 1666, foi por obra de Nossa Senhora que a praça-forte de Vinhais não foi conquistada.
Apesar dos esforços valorosos dos vinhaenses que ficaram intramuros a defender o terrunho, vendo-se quase vencidos e na iminência das tropas invasoras entrarem portas adentro, colocaram sobre a muralha a veneranda imagem da Nossa Senhora da Assunção, a padroeira, com as chaves das portas da fortaleza nas suas mãos.
Um clarão ofuscante originado pelos raios de sol refletidos nas chaves de ferro assustou de tal forma as tropas do general, que bateram em retirada.
Nossa Senhora dos Remédios, em Nunes:
Conta a lenda que, numa ocasião, um grupo de peregrinos que por ali passava, em direção a Santiago de Compostela, foi violentamente atacado e roubado por larápios. Ficaram sem mantimentos e caídos por terra, apenas com a roupa que traziam no corpo, famintos e feridos.
De repente, viram surgir por entre o que restava de uma antiga vinha uma linda Senhora, coberta com um manto cintilante, que milagrosamente fez brotar das velhas e secas cepas, apetitosas e doces uvas para se alimentarem; e com um bálsamo sagrado, extraído dos suculentos bagos dos frutos, curou-lhes as mazelas provocadas pelos agressores, desaparecendo de seguida.
Bem perto do local onde se encontra a capela de Nossa Senhora dos Remédios, nas imediações de Nunes, localiza-se a pequena aldeia de Cidões, cuja padroeira é Nossa Senhora da Assunção.
Trazemos à liça esta matéria pelas particularidades e peculiaridades que a igreja matriz apresenta, bem como pela primitiva invocação da ermida de Santa Maria de Cedões, conforme consta em vários documentos que constituem a primeira referência escrita ao culto de Santa Maria, que tenha chegado ao nosso conhecimento, neste território.
Não nos demoraremos em longos considerandos, por este assunto ter sido amplamente abordado na comunicação proferida durante a 2.ª Convenção da OPTCJ, em Castelo Branco. No entanto, relembramos que na igreja existe, também, outra representação da Virgem Maria sob a invocação de Nossa Senhora da Ribeira e uma curiosa pia batismal em mármore, cujo fuste octogonal exibe, em quatro das faces, o que aparentam ser cruzes orbiculares, em alto-relevo, e cuja proveniência de ambas será de um antigo mosteiro templário existente no alto das Fragas de Sanamêdeo [12], o que carece de fontes históricas.
Uma coisa é certa, além de se localizar na freguesia de Vilar de Peregrinos – topónimo que remete para uma eventual variante do caminho de Santiago Via da Prata que atravessa o concelho – os documentos do séc. XII, do Mosteiro Cisterciense de Santa Maria de Monte de Rama (Ourense), atestam a existência da Granja de Santa Maria de Cidões, sendo nesta que se fazia a gestão de todos os bens que aquele possuía em Portugal. Granja essa, localizada em propriedades doadas por D. Afonso Henriques a Fernando Anaiazi em 08.07.1128.
Ora, facilmente se constata a antiguidade do culto a Santa Maria neste território cujos templos e ermidas, não fugindo à regra, terão ocupado lugares de primitivos templos pagãos dedicados a diversas divindades.
Em termos iconográficos, destacamos a escultura encastrada na fachada a antiga igreja de São Facundo, que a tradição oral interpreta como uma representação da Santíssima Trindade, mas que, de acordo com Luís Montalvão [13], se poderá tratar de uma rara representação da Virgem em Majestade Românica, teoria que corroboramos.
É unanime a opinião de que aquelas antiquíssimas esculturas não ocuparão o seu lugar original, mas desconhece-se a sua proveniência. No entanto é curioso a igreja ser dedicada São Facundo, que, segundo a lenda, terá passado por cá por altura das invasões bárbaras à Península Ibérica, acompanhado do seu irmão Primitivo, ambos soldados galegos e cruelmente assassinados por não renegarem a sua fé.
Os seus corpos foram esquartejados e lançados às águas do rio Ceo, encontrando-se as suas relíquias em Sahagún – topónimo resultante da corruptela de Facundo – que dista de Vinhais cerca de 250km. Dali provém uma escultura da Virgem Maria em
Majestade, com datação provável dos séc. XII/XIII, em tudo semelhante à de Vinhais, encontrando-se exposta no Museu Arqueológico de Madrid, e que apresenta a seguinte inscrição “RES MIRA-NDA SAT-IS BENE-CONPLA-CITVRA-BEA-T-I-S” – Coisa digna de ser admirada plenamente para satisfazer os bem aventurados [14].
Este fervor cristão presente na tradição oral e no lendário popular dedicado à Virgem, encontra, nas palavras do eminente sábio vinhaense, Pe. Firmino Martins, a seguinte justificação: É sabido que na alma popular há, a par da ingenuidade devota, uma réstia cintilante de génio emoldurada na simpleza da forma, que atinge os raios da mais profunda teologia [15].
É constante a presença da Virgem no cancioneiro vinhaense:
A Nossa Senhora / Ave-Maria / Avé tão bela / e Nossa Senhora / à beira do rio / lavando barrela. / Ela lavava / S. José estendia / o menino chorava / c’o frio que fazia. / Cala, menino / cala meu amor / que são pancadinhas / da mão do senhor / que as suas verdades / cortam com dor. / Os filhos dos ricos / em berço dourado / só tu, meu amor / em palhas deitado. / Ó Virgem, ó Virgem / ó Virgem coroada / por cima do manto / uma coroa sagrada. / Uma coroa sagrada / que vem da glória / ó Virgem, ó Virgem / que é quem a adora.
Nos responsos:
A Nossa Senhora / Eu Sou / Deus vá comigo / e a Virgem Maria / assim como S. Pedro /foi ó rio Jordão / e foi bem e veio bem / eu vá e venha também. / Com as armas de Cristo / eu vá acompanhada / do sangue Cristo / vá banhada / do leite da Virgem / vá barrufada / belos campos andarei / bons e maus encontrarei / os bons me falarão / e os maus me não vencerão / e eu serei a vencedora / co’a sempre Virgem Maria Nossa Senhora. / Em honra de Deus e da Virgem Maria / com um Pai Nosso e uma Ave-maria.
Ou:
Eu Maria sou/cos cordões de S. Francisco/sou apertada/cô leite de N. Sr.-fui barrufada/fé non é, leve no meu pé / por verdes campinas irei / bons e maus encontrarei / os maus me non verão / e os bons m’encobrirão / de ninguém serei vencida / eu serei a vencedora / Deus me dêa tal companha / como deu a Nossa Senhora. / Em louvor de Deus e da Virgem Maria / com um Pai Nosso e uma Ave-maria.
No romanceiro:
Lá se vai Nossa Senhora / do Egito p’ra Belém / seu Filho leva nos braços / é Jesus de Nazarém. / Indo no meio do caminho / deitou seus olhos além / avistou um maçanal / que lindas maçanas tem / o pastor que as guardavam / cego é, que não vê bem / – Dai-me uma maçana, ó cego / para o menino comer./ – Entre lá, minha Senhora / entre lá, vá-as colher / não lhe dou uma nem duas / dou-lhe as que o menino comer. / Menino come a maçã / cego começou a ver. / – Quem te deu vista, ó cego? / Ó cego, quem te deu ver? -Foi a Virgem Nossa Senhora / que tinha todo o poder.
No ditado:
A Senhora da Serra tira a merenda e dá a vela.
Nos Ramos e Autos de Natal e representações tradicionais da Paixão de Cristo:
(…)
Ai dolor, dolor, dolor / dolor de tanta tristeza! / Oh gente desesperada / gente sem comedimento. / Oh gente desatinada / para que é tal crueza / tanto sem merecimento? / Filho, pois por tantas vezes / fazes oração ao Padre. / Ó Filho meu, não desprezes / os braços, o choro e preces / desta tua triste Madre. / Rogo-te, Filho amoroso / que me não deixes assim / que meu vigor e repouso / será triste e temeroso / fazendo vida sem ti. / Que fico desamparada / e esposo, Filho e Senhor / de todo o bem esquivada / de todo o mal requestada / de todas as tristes maior. / Mulheres que dor tam forte / meu coração aqueixa! / Oh grave mal, dura sorte! / Filho, antes desta morte / algum consolo me deixa.
(…)
Nas ladainhas e mezinhas:
Vai-te daqui ozipla e oziplão.
– Donde vens, Ana?
– Venho de Roma.
– Que foste buscar?
– Nossa Senhora.
– Para quê?
– Para benzer a ozipla e oziplão.
Pois seca-te aqui e ali;
Torna doce e amor
Como tornaram as cinco chagas
De Nosso Senhor.
E vai para onde não cabes nem alargues;
Não faças ferida que mal pareça.
Vai-te daqui mais depressa que puder ser.
Seca a ferida com a espiga.
Em honra de Deus e da Virgem Maria,
Com um Pai Nosso e uma Ave-maria.
Ou em quadra, na voz do poeta popular:
| Da minha janela rezo à Senhora das Candeias, que me traga o meu amor que anda por terras alheias. |
A Senhora do Rosário Tem um rosário na mão; Se ela me desse ura sarta, Dava-lhe o meu coração. |
| Ó minha Virgem da Serra, Eu pró ano lá hei de ir, Ou casada ou solteira Ou criada de servir. |
Senhora do Carmo, Mãe do divino Verbo, livrai a minha alma das penas do inferno. |
| Ó Senhora dos Remédios, Dei um nó à trevisqueira, Eu pró ano lá hei de ir Ou casada ou solteira. |
Ó minha Mãe do céu, Senhora Santa Maria, Levai-me notícias minhas. Ao meu-amor d’algum dia. |
| Ó Senhora d’ Assunção, Senhora tão pequenina, comadre da minha mãe Senhora minha madrinha. |
Chamaste amor perfeito A uma flor qu’a terra cria; Amor perfeito há só um Filho da Virgem Maria. |
| A Senhora da Saúde Tem um manto mui bonito, Que lho deu um marinheiro Que no mar se viu aflito. |
O povo, profundamente devoto e crente, a Ela recorre em momentos de aflição, prometendo sacrifícios e oferendas em troca da salvação, num respeito tal que impedia as mulheres de se pentearem durante a Semana Santa para, contaram-nos, não arrepelar a Senhora.
Senhora cuja intervenção divina e poder celestial impediu o fim da humanidade.
Ao longo dos tempos generalizou-se uma crença apocalítica de que o mundo acabaria na transição do séc. XX para o XXI, conforme várias profecias rezavam e a tradição oral apregoava, afirmando ter sido essa a vontade de Deus:
– Estende-te mundo que aos 2000 chegarás, mas daí não passarás!
Mas Nossa Senhora, pegando num punhado de areia do chão lançou-o para trás das costas, ordenando:
– E mais estes!
Referia-se a mais um ano por cada grão.
Talvez seja a razão de ainda cá andarmos… e talvez seja por isso, também, que a figueira que milagrosamente rasgou as cantarias do campanário da igreja da Ordem III de São Francisco, aqui mesmo ao lado, se mantenha viçosa e verdejante – apesar dos figos que anualmente brotam dos seus ramos nunca amadurecerem – e que, segundo a lenda, se secar acaba o mundo.
E porque ainda celebramos este que é o tempo Pascal e a devoção popular preserva, na oração, a memória das Marias que passaram pela vida de Jesus:
Quinta-feira de Endoenças / Sexta-feira das Paixão / Sábado da Aleluia e Domingo da Ressurreição. / Passou aqui nossa Senhora / com um ramo Bento na mão / eu pedi-lhe uma folhinha / ela disse-me que não / eu tornei-lha a pedir / ofereceu-me o seu cordão / que me dava duas voltas / ao redor do Coração. / Ó Beato São Francisco / desapertai-me este cordão /que mo deu a Virgem Maria / na manhã de São João. / Quando Deus andava no mar / e o sanguinho a pingar / tem-te, tem-te Madalena / não lho vás a limpar / que isto são as cinco Chagas / que Deus tem para passar / umas cinco na Quaresma / outras cinco no Carnal. /Lá se vão as Três Marias / de noite pelo luar / em busca do Bom Jesus / sem no poder achar. / Foram dar com ele a Roma / vestidinho no altar / missa nova quer ouvir / missa nova quer cantar. / Estava com um cálice de ouro na mão / estava para consagrar. / Em louvor de Deus e da Virgem Maria / um Pai nosso com uma Ave Maria [16].
Terminamos citando o sacerdote e etnógrafo vinhaense Pe. Firmino Martins quando, naquele longínquo dia 8 de setembro de 1941, à passagem dos congressistas do 2.° Congresso Transmontano por Vinhais, os agraciou com um vibrante discurso de saudação:
(…) Encontrais-vos em Terras de Vinhais. Os momentos são breves, não tendes tempo para ver… Mas, acreditai-o: o que aqui palpita e se vê, é eco apagado e reflexo ténue do que não se ouve e se não vê.
(.) Mas. o tempo foge, como dirá o clássico; levai ao menos gravada nos olhos d’alma a lembrança fagueira, o perfil corpulento desta serrania agreste em cujos cimos, a par de capelinhas brancas, piedosas estrofes de amor ao Divino, ainda se admiram os restos de um passado longínquo [17].
Miguel Fernandes
Roberto Afonso
(Comenda de S. Pedro – Macedo de Cavaleiros (OPCTJ))
Vinhais, 22 de abril de 2023
Notas
[1] Círculo de Leitores, 1ª ed., 1981, p. 20.
[2] Todos os Nomes de Nossa Senhora, ed. de autor, 2017.
[3] in Brigantia – Revista de Cultura, O Culto de Nossa Senhora no Ocidente, vol. XXIII, n.° 3/4, 2003, p. 29.
[4] Maria Madalena e o Santo Graal: A Mulher do Vaso de Alabastro, Quetzal Editores, 2004, p. 96.
[5] Paço da Chancela Thomar – Portugal | Mundo de Papel – Enc. Artesanal – Tomar Portugal, s/d.
[6] Capela, José Viriato (Coord.), As Freguesias do Distrito de Bragança nas Memórias Paroquiais de 1758 – Memórias, História e Património, Braga | 2007.
[7] Pe. Firmino Martins, Folklore do Concelho de Vinhais, vol. I, 1928, pp. 114-116.
[8] Informante: Isabel Rodrigues (Tuizelo), Apud Roberto Afonso, Contos e Lendas Transmontanos – Vinhais, Minha Virgem dos Remédios, LeYa, 2020, pp. 89-90.
[9] Roberto Afonso, (Às) Contas com Almas Penadas e Diabos, Bruxas e Maus-olhados, Oficina do Livro | LeYa, 2021, pp. 62-64.
[10] Do manuscrito de Rebordelo, “Libro de Oraçoins ao Alticimo Deos todo Pedrozo, escrito na primeira metade do século XIX, pertença da família de Abraão Gaspar.
[11] Roberto Afonso, Contos e Lendas Transmontanos – Vinhais, Ver para Crer, LeYa, 2020, pp. 141-144.
[12] Pinho Leal / Abade de Miragaia, Portugal Antigo e Moderno, vol. 11, 1889, p. 1267; Pe. Firmino Martins, Folklore do Concelho de Vinhais, vol. I, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1928, pp. 107-108.
[13] Boletim Municipal de Vinhais, 1.° sem. 2012, pp. 24-25.
[14] http://www.arquivoltas.com/12-Leon/01-Sahagun.htm, acedido em 03.04.2022.
[15] Breves apontamentos acerca do culto da “Mãe do Amor Fermoso” no Folclore Bragançano, in Mensageiro de Bragança, Ano XI, n.° 307, 09.06.1950, pp. 1 e 5.
[16] Informante: Graciete de Morais Afonso (Nuzedo de Cima, Vinhais), 73 anos.
[17] II.° Congresso Transmontano, Discurso de Saüdação aos Congressistas, Tip. da Oficina de São José, 1941.


