Notícias e vestígios da passagem dos Templários pelo Concelho de Ferreira do Zêzere

ferreira do Zêzere

Talvez não vos traga nada de novo ou nada que não conheceis nesta informação que agora aqui vos deixo pois quase tudo o que aqui relato colhi de livros e artigos que outros, antes de mim, já tinham escrito e estudado. Não me coibi, por isso, sempre que me pareceu importante, de citar textos e autores ipsis verbis.

Limito-me, pois, a partilhar convosco a alegria da descoberta e a firme vontade de tentar dar alguma ordem cronológica aos assuntos que fui estudando e descobrindo.

Começarei por vos dizer que a presente investigação me proporcionou um maior conhecimento acerca das Ordens do Templo e de Nosso senhor Jesus Cristo, sua precursora, permitindo-me constatar a enormíssima importância que ambas tiveram quer na difusão do Cristianismo, quer no desenvolvimento de conhecimentos científicos em domínios como a geografia, a astronomia, a teologia ou a cartografia, sem esquecer a ação original no apoio aos peregrinos da Terra Santa onde estes se destacaram como pioneiros de uma verdadeira rede bancária transfronteiriça ou o impacto na pacificação do nosso território e no seu desenvolvimento económico e social.

Com uma área aproximada de 190km2, 9 paróquias e 7 freguesias civis, o Município de Ferreira do Zêzere tem hoje uma população residente de cerca de 7.000 habitantes.

Neste território subsistem testemunhos da presença humana desde períodos como o paleolítico, o neolítico, o calcolítico, a idade do bronze ou a do ferro assim como importantes vestígios da presença dos romanos e dos mouros. Disso nos dá conta a carta arqueológica do concelho, da autoria dos arqueólogos Carlos Batata e Paulo Arsénio, que identifica mais de meia centena de estações arqueológicas remotas de entre as quais destacaremos estelas funerárias templárias e vários marcos de delimitação de propriedades relativos às ordens agora estudadas.

Tal não é de estranhar pois que desde o século XIII parte deste território pertenceu às Comendas Templárias de Pias, Ferreira e Domes.

D. Afonso Henriques, (por volta de 1106, 1109 ou 1111 – 6 de dezembro de 1185)
D. Afonso Henriques, (1109 – 6 de Dezembro de 1185)

Referem alguns autores, que a caminho da Terra Santa e ao passarem por Portugal, D. Teresa e mais tarde D. Afonso Henriques pediram ajuda aos Templários para a expulsão dos Mouros que ocupavam grande parte da Península. Diz-se até que D. Afonso Henriques já seria um cavaleiro da Ordem do Templo quando subiu ao trono sendo certo que os Templários ajudaram D. Afonso Henriques na conquista de Lisboa após a notável façanha da conquista de Santarém, obtendo como compensação a jurisdição eclesiástica dos territórios escalabitanos.

Esta doação, feita em 1159, foi, no entanto, contestada pelo Bispo de Lisboa, D. Gilberto, pelo que, com exceção da igreja de Santiago, D. Afonso Henriques trocou os ditos direitos eclesiásticos de Santarém pelo território de Ceras cujo castelo original ficava nos limites daquela que viria a ser a Comenda das Pias. Podemos assim afirmar sem reservas que em 1159, D. Afonso Henriques doou à Ordem dos Templários parte do que é hoje o concelho de Ferreira do Zêzere!

Do primeiro século da presença templária neste território destacam-se dois monumentos, autênticos expoentes da arquitetura militar medieva dos séculos XII e XIII. Refiro-me às Torres da Murta (ou do Langanhão), junto ao lugar do Pereiro e à Torre pentagonal de Domes, ambas a curta distância de Soure e Tomar.

O que talvez possa constituir novidade neste meu escrito é que se por um Iado, verificamos que os Templários já por aqui andavam em 1152, quando, sedeados em Soure, lhes terá sido doada a Torre da Murta, por outro, a Torre de Dornes não terá sido mandada edificar por Dom Gualdim Pais já que este morre em 1195 e a povoação ribeirinha apenas chega aos Templários por doação, documentada, em 1206.

Em suma, este território não era estranho aos Templários que pelo menos desde 1152 já conheciam a região através da sua Torre da Murta e nos anos seguintes à doação de 1159 viram os seus domínios serem aumentados por sucessivas doações estudadas e reproduzidas pelo insigne historiador Dr. António Baião, na sua monografia intitulada “A Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere”.

Importará aqui abrir parênteses para referirmos que a nordeste das terras de Ceras, entre a Domes e Figueiró dos Vinhos, se situava um território designado por Monsalud que em finais do século XII pertencia a Dom Pedro Afonso, meio-irmão de el-rei D. Sancho I no qual, sobretudo nas imediações da Serra de São Paulo, ainda habitavam, por esta altura, vários sarracenos e que aqui terão ocorrido ocasionalmente combates antes, durante e depois da ofensiva almóada de 1190.

Não sabemos, só a arqueologia o poderá ditar, se os vestígios de um “castelo” já difícil de ser entendido como tal, que se encontram no cimo da Serra de São Paulo, serão de origem cristã ou muçulmana, mas acerca disso falarei mais adiante.

Iniciado o processo de extinção da Ordem do Templo em 1307, por iniciativa do Papa Clemente V e vontade de Filipe “o Belo”, el-rei Dom Dinis passou para a coroa os territórios e as riquezas dos Templários em Portugal e empreendeu a criação de uma nova Ordem à qual restituiu os bens penhorados a 15 de Março de 1319. Assim, por bula do Papa João XXII nascia a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, assumida como a sucessora dos Templários e fiel depositária dos bens destes entre os quais se encontravam as já referidas Comendas no território aqui estudado.

Com a pacificação das fronteiras e as campanhas de povoamento desta região através da enfiteuse, o termo de Domes rapidamente se tomou um importante centro religioso e comercial de referência na região e em 1453, sendo seu Comendador-mor o Frei Dorn Gonçalo de Sousa, descendente de el-rei Dorn Afonso III, foi aqui edificada, às custas deste, a atual lgreja de Nossa Senhora do Pranto, um dos mais emblemáticos Santuários Marianos portugueses.

A este fidalgo, que foi também Vedor da casa do Infante Dorn Henrique e Alcaide de Tomar, se devem ainda a construção do Lagar de São Guilherme, nos arrabaldes de Domes e a quinta da Granja, ou do circuito (hoje quinta do cerquito) com a sua capela de Santo Antão, um Santo venerado sobretudo pelos Templários, cuja traça original chegou até aos nossos dias através de um desenho de Alfredo Keil, reproduzido na obra “Coletânea Artística do Concelho de Ferreira do Zêzere” do Dr. Paulo Alcobia Neves.

Ainda que alguns dos bens desta nova Ordem tenham sido atribuídos à Casa do Infantado após a restauração da independência, isto no século XVII, só no século XIX, com a extinção das Ordens Religiosas e Militares, se concluiu um vínculo secular acerca do qual muito fica por revelar.

Termino este breve resumo da presença templária nesta região lançando-vos um desafio…

Em miúdo, talvez com uns 7 ou 8 anos, acompanhava o meu amigo pastor Mário nas saídas com o rebanho. Isto num tempo em que a água do poço que servia a casa era a mesma com que se regava a horta.

Depois da horta passávamos os pomares, as searas, os olivais e iniciávamos a subida até ao cume da serra.

Era para aí que nos dirigíamos de cajado na mão, bucha num saco de pano atado à cintura e umas barbas de milho.

Demorávamos talvez uma hora a chegar ao cimo da Serra de S. Paulo e o nosso poiso favorito era no “Castelo”.

O Castelo mais não era que o remanescente de uma edificação em pedra posta, praticamente destruída.

Enquanto o rebanho pastava na encosta frondosa e íngreme que levava ao Zêzere, encostados ao resto das paredes que restavam comíamos a bucha e depois fumávamos ou pensávamos que fumávamos as nossas barbas de milho enroladas em papel pardo.

Desfrutávamos daí uma vista deslumbrante sobre as curvas do Zêzere que se aproximava de Domes com a sua Torre bem saliente naquela pequena península.

O local era ótimo para quem quisesse observar a montante o tráfego do Zêzere e quisesse transmitir algum aviso para a Torre de Domes.

Só mais tarde se nos levantou a curiosidade de saber quem tinham sido os habitantes daquele Castelo.

Falavam-me dos Romanos, mas sobretudo dos Monges Templários.

Apenas vi referências a este Castelo da Serra de S. Paulo num texto de Bandeira de Toro que me foi indicado pelo Dr. Paulo Alcobia Neves e num outro, do Dr. António Baião, que menciona o Castelo por onde passava uma estrada romana que levava ao cais e ao Zêzere e a outras ribeiras.

O Castelo, sucessivamente mutilado pela falta de senso de quem queria ali plantar eucaliptos está hoje praticamente destruído.

No entanto admito que com uma investigação mais cuidada talvez pudéssemos chegar à conclusão de que possa ter sido, ou não, dos nossos antepassados Templários.

Aqui deixo o desafio para quem quiser ou puder investigar o faça.

E como diria o nosso Eça de Queirós “não vá o sapateiro além da chinela” por isso aqui me deixo ficar atento e pronto a ouvir as vossas críticas e sugestões.

Fernando Seixas – Membro da Comenda de Santo Estêvão de Pussos – Alvaiázere

Bibliografia

  • Baião, António SimõesVila e Concelho de Ferreira do Zêzere
  • Capelo, José ManuelPortugal Templário – A presença Templária em Portugal
  • Dias, José António Rajani OliveiraPortugraal -O Reino Templário (Ensaio Histórico)

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