“O amor não busca outro motivo e nenhum fruto fora de si; ele é seu próprio fruto, seu próprio deleite. Amo porque amo; amo para poder amar”.
São Bernardo de Claraval
Introdução
Muito se tem dito e escrito sobre a Ordem dos Templários, e muito ainda haverá para ser comprovado, histórica e geograficamente.
Estudar a vida quotidiana desses cavaleiros e entender o seu espírito esotérico de honra e de crença que os guiava, leva-nos para um nível de exigência e conhecimento bastante complexo e rigoroso.
Em certos momentos é muito denso, e em outros momentos o trabalho e a importância da Ordem do Templo para a história da Europa em geral, e para Portugal muito em particular, magnetiza-nos e leva-nos a “voar” nos tempos e a imaginar a sua forma de vida.
Perdurou na Idade Média durante cerca de dois séculos (1118-1312), e os Templários ainda hoje causam aos historiadores diversas e diferentes dificuldades interpretativas: “…são ainda hoje (e sobretudo hoje) uma instituição difícil de entender” [1].
Muitos factos do seu desenvolvimento, das suas capacidades de organização e disciplina, da sua importância na defesa dos peregrinos cristãos que se deslocavam a Jerusalém, e até as suas aptidões em matérias económicas, deverão ser salientadas.
Para além de tudo isso, nós portugueses, teremos a responsabilidade de nunca deixar esquecer a importância dos Cavaleiros Templários na conquista das diversas geografias do Nosso Portugal, assim como dos conhecimentos que nos ajudaram na Era dos Descobrimentos que perdurou do século XV até ao século XVII. Esses saberes foram responsáveis por importantes avanços da tecnologia e ciência náutica, da geografia, da cartografia e da astronomia, desenvolvendo os primeiros navios capazes de navegar em segurança em mar aberto pelos oceanos.
Fernando Pessoa escreveu um dia que “o mito é o nada que é tudo” e possivelmente, se o arquivo central dos Templários, localizado na Ilha de Chipre não tivesse sido destruído em 1571 pelos otomanos, hoje saberíamos mais e hoje também imaginaríamos menos — o mistério e a ausência de informação adensa o fascínio pelo desconhecido. Mitos, narrativas deliciosas carregadas de simbolismo e de imagens fantásticas, sobrevivem a séculos de história, incluindo a história portuguesa: os mitos não se desfazem num sopro como o pó, tornam-se parte da realidade e da construção de coisas grandes, enormes, como países e identidades. Tornam-se tudo! [2]
De uma outra forma, a Ordem de Cister, exerceu nos inícios da criação de Portugal uma grande influência no plano religioso, intelectual, assim como no campo das artes e da espiritualidade, devendo o seu considerável desenvolvimento a Bernardo de Claraval, que viveu entre os anos 1090 e 1153. Este homem de excecional carisma, exerceu a sua influência e o seu prestígio pessoal de forma tão repleta de religiosidade, que o tornou no mais célebre dos cistercienses. Embora não seja o fundador da Ordem de Cister, foi o seu grande mentor espiritual [3].
Para a história da Ordem do Templo, a figura legendária de Bernardo de Claraval teve uma importância fundamental, não só por ter desenvolvido a “Regra dos Templários”, mas também porque se apresentou no poder eclesiástico de então, como um defensor acérrimo dos princípios Templários, que apresentavam uma certa proximidade com a filosofia cisterciense.
Os Primórdios da Geografia de Portugal
Estávamos no ano 140 A.C. e as tropas romanas ocupavam a então designada Lusitânia. Júlio César estava cansado e entediado com os duzentos anos de irritações que os lusitanos impuseram às legiões romanas, e dizia e deixou escrito: “Há uma civilização nos confins nórdicos da Ibéria que não se governa e não se deixa governar” [4]. Essa tribo eram os Lusitanos, povo extraordinariamente espiritual, de origem Celta e cujo o nome se traduz como “povo da luz Ani”. Ani era uma das divindades principais do mundo celta, uma variante da deusa suméria Innana, considerada mãe dos deuses e que em encarnações posteriores volta a esta vida como Santa Ana, avó de Jesus Cristo.
As encruzilhadas do Rio Douro, o Oceano Atlântico, a Galiza, e a localidade de Cale, nome que deriva da palavra grega Kallis, que significa belo, e que foi criada na passagem dos Troianos, originaram uma expansão populacional no estuário do Douro ou dos Callaici ou Gallaeci, que foi uma fonte de veneração e que ainda hoje se encontra ligada à tradição irlandesa. Por essa altura Cale, e mais tarde Kallis, passou a designar-se de Porto Cale (belo porto) [5].
Com a passagem de diversos povos e formas de organização, toda esta região, por volta do ano 848 D.C. e após muitas batalhas, conquistas e reconquistas, serenou, pairando uma certa estabilidade por Porto Cale que se expande e irá ter o nome de Portucale.
O Noroeste da Ibéria, entre os rios Douro e Minho, leva cerca de duzentos anos a libertar-se da gestão da Galiza, teve um governo no ano 950, passando a feudo em 1050 e passados cerca de vinte anos tornou a ser incorporado na Galiza.
Em 1083 dois primos, de nome Henrique e Raimundo, chegam a cavalo de Dijon a esta região por indicação de Afonso VI, rei de Castela e Leão, Galiza e Portucale, e que vinham com a responsabilidade de combater os sarracenos, mouros e outros árabes de toda a região da Galiza e Portucale.
Os dois borgonheses conquistaram grande reputação com as conquistas realizadas e os trabalhos desenvolvidos nesse espaço territorial.
Como prova de apreço, Afonso VI, de cognome “O Bravo”, ofereceu a sua filha Urraca em casamento a Raimundo, concedendo-lhe o governo da Galiza como feudo pessoal.
Por sua vez, o corajoso Henrique, recebeu em casamento a filha ilegítima de Afonso, de nome Tareja (Teresa), juntamente com um dote de terras em Castela.
Posteriormente, Afonso VI, descobre que não podia confiar em Raimundo, pois este pretendia expandir o seu recém-adquirido território galego. Assim, Afonso elaborou um plano engenhoso para o impedir, e atribuiu a Henrique e Teresa uma parte do território contíguo, designado mais tarde por Condado Portucalense.
No verão de 1086 os reinos flamengos e ducados franceses, incluindo a Borgonha, reuniram exércitos para a árdua Cruzada da Terra Santa. Afonso VI, quis também oferecer o seu contributo, mas tinha um problema militar. Como os sarracenos e mouros continuavam a realizar diversas incursões e reconquistando algumas áreas geográficas do reino, Afonso não podia deixar as suas responsabilidades perante tais ataques. Assim, decide encarregar o genro Henrique de realizar essa participação em seu nome até Jerusalém. A sua boa relação pessoal e familiar, assim como a sua educação comum recebida na Casa de Borgonha facilitaram todo o processo.
As participações de Dom Henrique por terras de Jerusalém evidenciaram-se com resultados muito positivos, tendo sido bem-sucedido nas responsabilidades que lhe foram acometidas, assim como na defesa dos peregrinos que caminhavam em direção à cidade Santa.
No regresso e como recompensa, Afonso VI oferece ao seu genro o governo da cidade portuária de Porto Cale e da região das antigas terras dos lusitanos [6], e concedeu-lhe o título de Conde [7].
Dom Henrique instalou-se na cidade de Guimarães e aprendeu a língua portuguesa, ao mesmo tempo que se foi preparando para realizar a sua viagem até à Palestina com o objetivo de libertar a Igreja do Santo Sepulcro [8].
Essa viagem representou um marco histórico na sua vida e no futuro de Portucale, especialmente devido às pessoas que teve a possibilidade de conhecer e que moldariam o destino do território geográfico que mais tarde viria a ser Portugal.
As histórias das aventuras por terras da Palestina de Dom Henrique raramente são referenciadas, mas existem documentos escritos pelos monges de Cister, que como sabemos eram escritores exímios, e que redigiram imensos volumes sobre os acontecimentos daquele tempo, tendo deixado diversos relatos sobre Dom Henrique por terras da Palestina. Descreveram as reverencias e visitas que o Conde realizou aos diversos locais sagrados, e que em troca do seu fiel e vigoroso apoio, teria recebido de um cavaleiro flamengo a custódia de várias relíquias sagradas, onde se incluía a lança que o militar romano usou na crucificação de Jesus Cristo, assim como o manto de Maria Madalena.
Em 1099, Dom Henrique regressa a Portugal, e na companhia de Geraldo [9], desloca-se prontamente para a cidade de Braga, tendo depositado as relíquias sagradas no interior da Igreja principal.
Os Templários e a Origem de Portugal
Em meados do século XII, oito cavaleiros franceses, em grupo, e sob a liderança de um nobre francês da localidade de Champagne, de seu nome Hugo de Payns, tomaram a decisão de assegurar a proteção dos peregrinos cristãos que se dirigiam a Jerusalém. Na altura, o rei cristão dessa cidade era Balduíno II, que reinou entre os anos 1118 e 1131, e que doou a esses cavaleiros uma casa localizada no local que fora noutros tempos o Templo de Salomão. Por esse facto, faz com que os cavaleiros decidam dar o nome à nova Ordem então criada de “Cavaleiros do Templo ou Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”, no ano de 1118.
No início do outono de 1126, no recente Mosteiro de Claraval surgem dois cavaleiros templários de seu nome Gondemare e André de Montbard que viajavam desde Jerusalém especificamente para reunirem com Bernardo de Claraval e entregar-lhe uma carta do rei com o pedido de os receber e de solicitar uma aprovação apostólica, assim como a elaboração da sua própria regra. André era tio de Bernardo, o que fazia com que este se sentisse bastante à vontade para fazer o pedido que ali levava os dois distintos Cavaleiros [10].
Para além disso, haviam outros bons acontecimentos na fluorescente Ordem Templária. A irmandade fraterna seguia a obra de Deus no Monte do Templo, e no ano anterior, o rei Balduíno II tinha reconhecido Hugo de Payens como grão-mestre dos Cavaleiros Templários, citando-o como “magíster Templi”, numa outorga de privilégios aos venezianos [11].
Os cavaleiros templários tinham na sua organização muito hierarquizada, cavaleiros e capelães nobres, bem como irmãos laicos e sargentos. Esta divisão arraigava também no modelo cisterciense, que separava os monges de origem nobre (sacerdotes) dos de origem plebeia (irmãos conversos). À cabeça da ordem, figurava o grão-mestre, eleito pelos cavaleiros, grupo a que pertencia. Era, todavia, obrigado a consultar o capítulo geral da ordem para as decisões mais importantes.
A Ordem do Templo, apresentava uma excelente organização e os seus cavaleiros, eram exímios na arte militar. A sua forma de atuação nos campos de batalha rapidamente os tornou conhecidos por todos os recantos do mundo, de tal forma que que as tropas muçulmanas apresentavam um certo temor quando tinham de os enfrentar.
O auxílio que sempre ofereceram ao Condado Portucalense e mais tarde a Portugal, ainda hoje é reconhecido por muitos e diversificados historiadores.
Lembremo-nos do apoio fundamental dos Templários na conquista de Santarém e de Lisboa. Pensemos na forma como as riquezas templárias foram utilizadas para construir, dinamizar e defender um Estado Nação que alguns especialistas defendem ter sido Portugal, e cujo desempenho foi crucial para a formação da independência do nosso país.
Pensemos nas riquezas históricas da cidade de Tomar, e na lealdade de Dom Gualdim Pais para com o seu amigo e Rei D. Afonso Henriques.
Os templários eram muito dedicados à cidade de Tomar, tendo construído edifícios e espaços que respondiam às totais necessidades da Ordem. Nesta cidade, desenvolveram as suas duas facetas de religiosidade e esoterismo, assim como era habitual em todas as outras ordens secretas do tempo.
Detalhes de uma câmara oculta foram tapados “infelizmente pela pobreza e a ignorância, os demónios gémeos da conservação”, conforme referencia tão bem Freddy Silva na sua obra “Portugal – A Primeira Nação Templária” [12].
Também por isso, se poderão criar hipóteses sobre o paradeiro das muitas e diversificadas relíquias desaparecidas após a extinção da Ordem do Templo.
Façamos uma reflexão sobre os diversos estudos e hipóteses que têm sido dadas sobre as riquezas templárias que naquela célebre noite de 12 para 13 de outubro de 1307 desapareceram sem deixar rasto.
Uma grande questão que podemos colocar terá a ver com a possível localização dos valiosos tesouros que os Templários conseguiram fazer escapar ao decreto do Papa, e que tinha por finalidade abolir a Ordem dos Templários, assim como a perseguição e morte dos principais Cavaleiros do Templo.
Historiadores apresentam três hipótese [13]:
- Hipótese: O Castelo de Xivert, situado na província de Castellón, na Comunidade Autónoma Valenciana, Espanha. Sendo a comenda mais antiga dos templários no Maestrazgo [14]. Esta parece ser uma boa hipótese.
- Hipótese: Baseada em documentos encontrados na Universidade do Cairo, defende que o Graal teria saído do Egito como presente do califa para o emir de Denia, que, por sua vez, o teria entregue ao rei de Leão.
- Hipótese: O código secreto dos templários deu lugar a todo o tipo de suposições sobre tesouros ocultos e saberes misteriosos. No entanto, especialistas, referem que este código era utilizado para garantir o segredo das transações financeiras e comerciais, não para ocultar segredos da história providencial. Dedicaram o seu talento a outras atividades lucrativas como a cartografia, que, junto com invenções como o astrolábio trazido do Egito, lhes permitiu construir uma respeitável frota de guerra. Estariam a planear a criação de uma nova frota depois da dissolução da ordem? No caso de ser essa a sua intenção, e tendo em conta que a situação nos reinos espanhóis piorara, havia um lugar óbvio: Portugal ou Port-u-graal, ou seja, o porto do Graal, e a fortaleza de Tomar (DSARIO, Carolina Godayol, 2020).
Os Templários não deixaram de ter uma aura de prestígio e reputação de grande coragem, o que fez com que concebessem um autêntico Estado soberano, tais eram as mercês e privilégios que foram, principalmente no seu primeiro século de existência, acumulados ao longo do tempo pelo papado. Este estado de graça fez com que prosperassem imensamente e atingissem um efetivo de cerca de 15 000 religiosos nos finais do século XIII.
Eles foram os monges prediletos de santos e papas, e foram acusados de bruxaria e sodomia. Nas muitas leituras históricas realizadas em diversas bibliografias, poderemos dizer e escrever sem exagero e sem erro, que os Cavaleiros do Templo e a sociedade secreta que conseguiram criar e desenvolver foi a organização mais poderosa da Idade Média.
(Continua…)
Vítor Manuel Cardoso – Comenda Templária de S. João Baptista – Tomar (OPCTJ)
Notas
[1] Saraiva, 1988: 265
[2] O Observador, 2021/08/18).
[3] Georges Duby, Saint Bernard, l’Art cistercien, Champs, Flammarion, 1971, p. 9.
[4] César, Incertiavctoris de belloHispaniensiliber
[5] Davies, CelticLinguistics
[6] O nome Lusitanos é dado ao conjunto de povos da Lusitânia pré-romana, nomeadamente os que habitavam o território entre os rios Douro e Tejo, oriundos da Europa Central (possivelmente dos Alpes suíços), que terão chegado à Península Ibérica quando se deram as imigrações célticas
[7] Sousa, Manuel de Faria e, Europa Portuguesa
[8] Brito, Primeira parte e a versão de 1720 de Pascoal da Sylva, vol. II, livro VII, 387-89; e Sousa, Manuel de Faria e, Europa Portuguesa, livro 2, parte 1, capítulo 2, n.° 10, p.19; também citado Ferreira, Memórias e notícias históricas, 820
[9] S. Geraldo foi um ativo colaborador de Dom Henrique na implantação da reforma gregoriana, do rito romano e do monaquismo beneditino no Condado Portucalense
[10] Sucena, A Epopeia Templária e Portugal
[11] D’Albon, Cartulairegénéral, 1-2, n.° 2
[12] Ver Capítulo 40 – Tempo presente. Abril. Dentro da Rotunda de Tomar
[13] A História Secreta dos Templários
[14] O Maestrazgo é uma comarca histórica e natural, que se estende pelo norte da província valenciana de Castellón e pelo sudeste da província aragonesa de Teruel


