Nos dias de hoje, ouvimos muito falar dos templários como heróis de lendas e mitos. Ouvimos falar dos seus feitos históricos e da extensa influência económica e política da sua altura. Contudo, para além da lenda, poderíamos questionar-nos como seria a sua vida quotidiana. Este trabalho pretende endereçar esta curiosidade.
Conforme descrito pelos autores Paula Pinto Costa, Joana Lencart e José Medeiros, o dia a dia dos templários seria marcado por uma rotina rigorosa e disciplinada, voltada tanto para a vida espiritual quanto para a preparação militar. Os Templários começavam o seu dia com orações matinais, as matinas (entre as 2 e as 4 da manhã), seguidas de uma missa. Este seria um primeiro momento de introspeção e preparação espiritual para o dia que começava. Depois da missa, o foco seria o treino militar, como prática de combate e manejo de armas (como a esgrima), combate corpo a corpo, arco e flecha, montaria e táticas militares. Estas seriam habilidades essenciais para a condição de cavaleiros devotos, que seriam aplicadas nas batalhas e na defesa dos territórios cristãos.
As refeições, que se intercalavam, eram simples e feitas em silêncio, podiam ser acompanhadas de leituras de escrituras ou de textos religiosos, incentivando os Templários a refletir sobre a vida que seguiam. Segundo estudos, as suas dietas eram também simples e austeras, refletindo a humildade e moderação da vida que seguiam. Acredita-se que consumiam pão, legumes, e ocasionalmente carne, dependendo também das regras de cada época. Da parte da tarde, continuavam com atividades que podiam variar entre trabalhos manuais, estudo das escrituras, teologia e estratégias militares, bem como exercícios físicos. Entre estes poderiam estar a manutenção de armas e armaduras, a construção e reparo de fortificações, ou tarefas agrícolas nos territórios da Ordem.
Na eventualidade de haver conflito ou risco para a Ordem e, em particular, para o Cristianismo, os cavaleiros organizariam patrulhas para proteger os crentes, supervisionando as rotas de peregrinação. Defenderiam também o seu território, nomeadamente os castelos e fortalezas e preparariam estratégias de combate contra os seus inimigos.
A disciplina e a obediência eram fundamentais. Todos os membros seguiam um código de conduta estrito, baseado nas regras que já conhecemos, desde as orações e jejuns até ao comportamento dentro do campo de batalha. A vida comunitária era intensa, e cada Templário devia seguir os conhecidos votos de pobreza, castidade e obediência, vivendo de acordo com os preceitos da Ordem. Qualquer violação dos votos podia levar a punições severas.
Internamente, dentro da Ordem, haveria apoio mútuo e obediência perante a hierarquia e as regras templárias. A vida seria feita em mosteiros fortificados ou castelos onde todas as atividades e responsabilidades eram partilhadas reforçando o sentido de irmandade e serviço.
No final do dia, os cavaleiros participavam numa outra sessão de orações conhecidas como vésperas, seguidas de mais uma leitura das escrituras. Este momento final de oração serviria como uma forma de reflexão, ou exame de consciência, sobre o dia passado, refletindo sobre as suas ações e pensamentos, e reafirmando assim o seu compromisso espiritual, antes de se recolherem para o descanso. Todas estas rotinas ou rituais diários serviriam para os cavaleiros almejarem um estado de graça espiritual, sendo que o descanso seria breve pois o dia que se aproximava traria novos desafios e obrigações.
Estes aspetos mostram como o quotidiano Templário era uma combinação de devoção religiosa e dever militar, sempre visando cumprir a sua incumbência de proteger a fé cristã, mantendo ao mesmo tempo uma vida de profunda devoção e disciplina.
Ocasionalmente, haveria ocasiões especiais para os Templários, como os dias em que eram recebidos os noviços e fariam a sua profissão, que teriam o seu próprio ritual.
Como José Medeiros menciona na sua obra (2021, p.147):
“Quando algum noviço for admitido ao hábito pela comunidade, feito já o exame e mais coisas que mandam nossas constituições, será levado a Capítulo vestido em todo o hábito, excepto o escapulário, e por cima a capa de secular, e a coroa feita e coberta com um toucador, e chapéu nas mãos; entrando em Capítulo acompanhado do Mestre e roupeiro, o apresentarão de joelhos diante do Prelado, o qual lhe fará as perguntas como se cotem no livro da regra…”
“o cumprir lançar-lhe-á o escapulário sem cruz, despindo-lhe a capa secular com as cerimónias e orações que estão no dito livro, e o encomendará ao Mestre dos noviços, com o encargo costumado, e desse dia começará o tal noviço o ano de sua aprovação e noviciado”
De toda esta exposição, baseada no livro de José Medeiros, podemos reparar que para além de austera, a rotina dos Templários era, isso mesmo, uma rotina, com passos bem delineados e horas definidas para cada uma das atividades que regia o seu modo de vida. Poderíamos até dizer que este seria um ritual de todos os dias, começando pelas matinas, sendo seguido de uma missa, depois pelo treino militar, alguns momentos dedicados à alimentação, passando por tarefas quotidianas, e terminando com as vésperas com a introspeção para concluir o dia antes do descanso.
Tal como os Templários do passado, fortificamos nós também hoje as nossas fileiras da Ordem com a admissão de uma nova postulante que recebemos de braços abertos. É nesta renovação que reside a continuidade de uma Ordem como a nossa.
Por fim, ainda relacionado com o quotidiano templário, tive ainda a oportunidade de ouvir algumas intervenções públicas do José Medeiros, que é sem dúvida, um homem de um grande intelecto e humildade. No final de uma dessas intervenções partilhou ainda sobre o que seria, verdadeiramente, ser Templário. Para além das regras populares que conhecemos e referi acima, a vida deles seria também regida por uma regra que são 4 S’s. Ser, Sentir, Saber e Servir. Chegamos ao mundo e começamos no primeiro S, Ser. Estamos na nossa essência mais pura. Ao crescermos começamos a Sentir e a compreender o mundo à nossa volta. Só depois adquirimos algum conhecimento ou Saber e devemos então, com o nosso Ser, dedicarmo-nos ao quarto S, Servir. A vida dos Templários, da informação que temos, era muito centrada em torno do serviço e devoção às suas causas e ao seu Deus.
Depois de uma vida completa com significado e servitude surge um último S, que nos deve conferir paz, em que somos obrigados a respeitar as limitações da nossa forma terrena, Seguir. Devemos estar prontos para ir em paz sabendo que fizemos o melhor que pudemos e conseguimos.
Pedro Pires – Comenda de São Pedro – Macedo de Cavaleiros
Referências
Costa, P. P. (2019). Templários em Portugal: Homens de religião e de guerra. Lisboa: Manuscrito Editora. ISBN: 978-989-8975-31-7
Lencart, J. (2022). A Ordem do Templo e a Ordem de Cristo na Obra de Pedro Álvares Seco no Século XVI. Sintra: Zéfiro. ISBN: 978-989-677-193-5
Medeiros, J. (coord.) (2024). Ordens de Cavalaria, Monásticas e Iniciáticas: Três caminhos para o autoconhecimento, na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra. Mafra: Município de Mafra. ISBN: 978-972-8204-86-0
Medeiros, J. (2021). Usos e cerimónias da nossa Ordem de Cristo. Sintra: Zéfiro. ISBN: 978-972-8958-56-5


