O papel dos Templários na assistência aos feridos e doentes em plena Idade Média
Na idade Média, seria a religião quem mais fortemente interferiu com os cuidados de saúde e o tratamento dos doentes.
Se, por um lado, foi um enorme obstáculo e criou uma série de teorias que só vieram a prejudicar os níveis de saúde da população, foi também a igreja quem assumiu e proporcionou alguns cuidados aos doentes.
A saúde era muito precária e foi, inevitavelmente, influenciada pelas péssimas condições de higiene, pela forma como eram encaradas as doenças, que eram vistas como coisas sobrenaturais, castigos divinos. Os tratamentos dos doentes passavam, sobretudo, por rezas, penitências e mesinhas feitas com variadas ervas.
A Higiene foi um fator determinante no aparecimento das doenças na Idade Média.
Contrariando os hábitos de higiene comuns durante o Império Romano, que havia caído no ano de 476 d.C, a idade média viria a repudiar tanto a prática de banhos comunitários, como qualquer lavagem feita com água. É verdade! Aos poucos, a cultura do banho romana desapareceu e as termas viraram ruínas.
Então como aconteceu isso?
Foi sobretudo a igreja da época que participou ativamente nesta mudança cultural, convencendo toda a gente que o banho e o asseio eram luxos que abriam os portões do mundo do pecado, fazendo acreditar que o contacto com a água deixava os órgãos mais frágeis e, portanto, mais vulneráveis às doenças.
Dizia-se que os banhos podiam matar, ao abrir os poros para a entrada de algumas doenças e poderiam até deixar as mulheres inférteis.
O melhor seria manter uma camada de sujidade na pele, que funcionaria como uma barreira para os agentes patogénicos.
Assim, as pessoas limitavam-se a passar um pano húmido nas partes que ficavam expostas, ficando as partes debaixo da roupa sem nenhuns cuidados.
A higiene corporal só acontecia uma vez por ano, no chamado “banho anual”, quando o tempo quente aparecia no início do verão.
Mas a falta de higiene não era exclusiva do foro íntimo.
As ruas das localidades eram tomadas por lixo, esterco de animais, urina, fezes humanas e águas sujas.
O cheiro das ruas era de tal modo insuportável que as igrejas usavam incensos para mascarar o odor que vinha lá de fora e era trazido também pelas pessoas.
A maioria delas fazia as suas necessidades ao ar livre, entre árvores e arbustos. Quando eram feitas em penicos dentro de casa, eram depois jogadas pelas janelas para a rua.
Quando existiam sanitas, essas ficavam longe de casa, em rudimentares casinhas de madeira.
Depois, para se limparem, as pessoas usavam sobretudo folhas de plantas.
A lavagem do rosto era rara e os cabelos eram lar de alguns parasitas.
As pessoas comiam com as mãos, que nem sequer eram lavadas antes das refeições.
As louças também não passavam por nenhum processo de limpeza.
As roupas só eram lavadas uma ou duas vezes por ano e o produto de limpeza mais utilizado era uma mistura de água do rio, urina e soda cáustica, que acabava por deixar um cheiro extremamente forte e desagradável.
No chão das casas era colocada palha que recebia tudo o que caía ao chão, contribuindo para o mau cheiro e o aparecimento de bicharada.
As roupas das camas eram extremamente sujas e lar de muitos vermes e insetos.
As flores eram então usadas para camuflar o fedor dos ambientes das casas, numa mistura de aromas difícil de identificar.
Aliás, as epidemias eram comuns e as condições de higiene e saneamento, sendo tão precárias, contribuíam para a propagação fácil de doenças.
Foi nessa época, em plena Idade Média, que os Templários, como Monges guerreiros, desempenharam a sua ação e puderam influenciar, e de que maneira, o desenvolvimento, inovação e evolução da humanidade, em variadíssimos aspetos, entre os quais a assistência aos feridos e doentes.
As viagens e contactos dos templários no Oriente, bem como o comércio que se foi estabelecendo, junto com a seda e especiarias, trouxe os manuscritos árabes e a cultura greco-árabe, passando a preencher algumas lacunas existentes na cultura medieval do ocidente, na filosofia e nas ciências, sendo que, algumas contribuições no desenvolvimento da medicina medieval, foram especificamente de origem árabe e então trazidos pelos Templários.
Estes, com a sua permanência na Terra Santa, onde encontraram os hábitos de limpeza dos islâmicos e, com eles, sabão duro e perfumado, especiarias e perfumes como a água de rosas, até então desconhecidos na Europa, viriam a influenciar os seus hábitos de higiene e, aos poucos, das populações no ocidente.
As casas dos asiáticos há muito tempo que tinham banheiros, embora muito simples, formadas por buracos com tampas e conectadas a canos de argila, que levavam as redes de esgotos que passavam nas ruas e eram ligados a rios.
Curioso é constatar que os Templários, com uma vida guerreira de frequentes combates, tinham, no entanto, mais saúde, eram mais fortes e ganharam uma expectativa de vida cerca de 30 anos acima da média dos seus contemporâneos.
Nessa altura, a expetativa de vida dos homens rondava os 25 e os 40 anos.
A explicação deste paradoxo poderá estar na proveniência dos monges-guerreiros Templários que eram sobretudo oriundos de famílias nobres e ricas. Também será de referir o regime alimentar muito variado destes. Comiam pouca carne, não mais do que duas a três vezes por semana. Comiam muitos legumes e peixe, queijo, azeite e frutas frescas.
A higiene era também algo que os preocupava. Lavavam as mãos antes das refeições, mantinham o refeitório sempre bem arrumado e as toalhas muito limpas.
Nas grandes viagens e romarias sempre podiam bater na porta dos conventos que encontravam pelo caminho e serem acolhidos com generosidade na mesa dos religiosos.
E, então, como eram encaradas as doenças? E os tratamentos?
Na Idade Média a doença e o sofrimento eram vistos como uma consequência do pecado e o pecador tinha de sofrer de uma forma paciente e, sobretudo, ajudado através da caridade cristã.
Os tratamentos baseavam-se prioritariamente nas orações e, complementarmente, em remédios naturais, que também eram divinos, já que tudo era criado por Deus e era Ele quem imputava as caraterísticas curativas às plantas.
As doenças tinham assim um forte carácter moral e simbólico, vinculadas diretamente a algum pecado cometido, relacionadas sempre a transgressões espirituais, sendo a Lepra o seu maior exemplo: considerada como doença da alma, resultante de uma cópula nos dias de jejum e penitência, tratando-se, portanto, do produto de um pecado sexual.
Em relação à medicina como ciência e até mesmo em relação às medidas higiénicas, havia nessa época desconfiança, quando não uma franca hostilidade.
A igreja considerava-se como a única capaz de fornecer a verdadeira cura, tanto da alma quanto do corpo. Tertuliano dizia mesmo que “o Evangelho tornava desnecessária a especulação científica”.
Mas os Cavaleiros Templários, tinham um compromisso, tanto com a fé quanto com o cuidado dos feridos nas batalhas. Embora fossem conhecidos como corajosos e valentes combatentes, também eram dedicados à assistência aos feridos e doentes, com base na sua vocação religiosa e nos ensinamentos cristãos de compaixão.
Eles estabeleciam hospitais e locais de acolhimento para feridos, especialmente nas áreas mais próximas aos campos de batalha ou nos mosteiros que gerenciavam.
Durante as batalhas, os Templários não apenas combatiam, mas também tentavam prestar socorro aos feridos, sempre que possível. Isso envolvia cuidados médicos básicos, como o tratamento de ferimentos e a aplicação de remédios ou processos curativos. Além disso, os Templários seguiam a disciplina do “cuidado cristão” ao tratar dos doentes e feridos, independentemente de serem aliados ou inimigos.
Entre os seus membros existiriam médicos e cirurgiões, além de uma organização para garantir que os cuidados médicos fossem bem administrados. Esses esforços eram parte da responsabilidade social da Ordem, que acreditava que a proteção espiritual e a ajuda ao próximo eram igualmente importantes na sua missão.
Depois das batalhas e combates, os feridos eram retirados, cuidados e tratados, quer com tratamentos simples, como compressas de pano limpo e substâncias como vinagre ou ervas para desinfetar as feridas. Também usavam pomadas ou unguentos feitos com ingredientes naturais, como mel ou óleos, que tinham algumas propriedades antibacterianas. Ervas como a papoila, que contém morfina, ou a arábica, uma forma primitiva de opióide, eram utilizadas para seus efeitos analgésicos e sedativos.
Quando as feridas eram graves e não podiam ser tratadas de outra forma, as amputações eram uma opção. O procedimento era rudimentar e extremamente doloroso, pois a anestesia ainda não era conhecida na época. Em alguns casos, era usado álcool ou vinho, tanto para desinfetar como para embriagar a pessoa e ajudar a suportar a dor, mas o procedimento era extremamente arriscado e traumático.
A amputação envolvia geralmente o corte do membro afetado, utilizando uma lâmina afiada, como uma faca ou machado. Para evitar infeções, que eram uma grande preocupação, o membro cortado era frequentemente cauterizado com fogo ou ferro em brasa, quer para estancar o sangramento, quer para prevenir infeções. No entanto, mesmo com esses cuidados, a taxa de mortalidade devido a infeções era alta e muitos cavaleiros feridos que passavam por amputações, não sobreviviam.
No que concerne aos tratamentos, assentavam estes em três tipos fundamentais: dieta, medicação e cirurgia, sendo que nas duas últimas, as mais frequentes formas seriam a sangria e a cauterização.
As sangrias, com a utilização de sanguessugas, eram um ótimo remédio para muitos desconfortos e doenças, já que achavam que faziam uma “limpeza” das impurezas do sangue. Esta prática era muito habitual já que, segundo se pensava, “o sangue continha líquido maligno que devia ser libertado para curar o doente”.
O arsenal terapêutico era muito pobre e baseava-se, para além da utilização de sangrias, os purgantes, clisteres, xaropes, emplastros e diversas outras misturas.
Utilizavam sementes, plantas e drogas na composição das suas mesinhas, como aloés, âmbar, bálsamo, canafístula, canela, cânfora, erva lombrigueira, goma arábica, lápis lazúli, ópio entre muitas outras, que se trituravam e ferviam, com rigor nas quantidades.
Alguns desses produtos ou em combinação com ópio, visavam a insensibilidade à dor ou a administração anestésica por inalação no decurso de cirurgia de hérnias ou na redução de fraturas.
Os compostos de origem química, entre outros, como antimónio, chumbo, mercúrio, enxofre, foram aos poucos complementando os tratamentos tradicionais.
Para além destes tratamentos, os Templários também aplicavam rituais religiosos, espirituais e bênçãos, pois acreditavam que a fé e as orações podiam ajudar a suportar a dor, a recuperação e o conforto aos feridos e doentes.
Quando se tratava de doenças contagiosas, os cavaleiros Templários, como outras ordens militares e religiosas da época, enfrentavam grandes desafios devido ao conhecimento limitado sobre a transmissão de doenças e à falta de tratamentos eficazes. Contudo, a Ordem tinha certos protocolos e práticas que se baseavam em normas rudimentares de higiene mas, principalmente, na prática religiosa.
Embora o conceito de “quarentena”, como o conhecemos hoje, não fosse totalmente desenvolvido, existiam algumas práticas que envolviam o isolamento dos indivíduos doentes, especialmente em casos de doenças como a peste, que era temida e causava grandes sustos. A idade média foi sobretudo um período alargado deste flagelo, atingindo muitas gerações, de gente apavorada, temente, que está patente no apelo explícito que faziam ao orar, dizendo: “da fome, da peste e da guerra, livrai-nos Senhor”.
Quando um cavaleiro ou membro da Ordem era diagnosticado com uma doença contagiosa, ele era isolado dos outros, especialmente em espaços separados dentro dos mosteiros ou dos hospitais que os Templários administravam. Esse isolamento tinha como objetivo proteger os outros membros da Ordem e impedir a propagação da doença.
Apesar de, em toda a Europa, os primeiros médicos pertencerem às ordens religiosas, a partir do séc. XII a medicina monástica entra em declínio pelo facto das autoridades eclesiásticas suspeitarem que os monges estavam demasiado ocupados com os seus afazeres médicos, em detrimento dos deveres religiosos.
Assim, a partir do Séc. XII fundaram-se várias universidades por toda a europa, como em Bolonha, Paris, Montepellier, Oxford, Cambridge e Pádua. Também em 1288, em Portugal, no reino de D. Dinis, foi fundada em Lisboa a primeira Universidade portuguesa onde começou a ser ensinada medicina.
Embora tivesse de lidar com diversos conflitos para conquistar uma determinada autonomia do ensino e prática médica, já que a atividade do ensino era considerada uma função eclesiástica e a cultura uma questão de fé, a Universidade de Paris no Séc. XIII, com regulamento e estrutura bem organizada, teve autorização de funcionamento e foi apoiada tanto pelo papado como pelo rei de França.
Assim, a Medicina ensinada nas Universidades foi-se configurando como um campo de saber legítimo, letrado, embora com dificuldades em ganhar dignidade, por ainda ser considerada como uma “arte mecânica” que não lidava com questões espirituais, mas apenas corporais.
António Pimentel, Comenda de S. Pedro – Macedo de Cavaleiros
Bibliografia
Como eram os hábitos de higiene na idade Média, por Fábio Marton
O que unia ricos e pobres no passado? O medo do banho por Marta Leite Ferreira 2016
Curiosidades: Higiene na idade Média por Juraci Neves 2019
Sanitários em um castelo medieval, por Mark Cartwright
13 inacreditáveis e nojentas práticas de higiene da Idade Média por Rafael Sanson 2019
Como eram os hábitos de higiene na Idade Média por Fábio Marton 2020
A historiografia sobre a medicina da primeira Idade Média: um balanço por Bruno Uchoa Borgongino 2015
Fragmentos de Medicina Medieval em Portugal por Ana Marta Silva Pinto 2016
Comunicação por Luís Dufaur 2016
Medicina Medieval por Saulo Castilho 2018?
Amputações e Medicamentos bizarros: A medicina na Idade Media por Moacyr Scliar 2020
Acolher, dar e tratar: os mecanismos de assistência aos pobres e doentes na Idade Média por Ana Rita Rocha 2020
Tratamentos médicos aplicados ao longo da História por Lurdes Barata 2021
Construção do saber médico na Idade Média e suas relações com os poderes instituídos por André Silva Ranhel
Enfrentar a peste numa vila da Idade Média por Iria Gonçalves 2022
6 práticas médicas da Idade Média e suas eficácias (ou não) por Alejandro Sigfrido Mercado Filho 2022
Imagens: Nataliya Vaitkevich/Pexels


