A Geometria Sagrada e sua conexão com arquiteturas e símbolos templários

E, mesmo sem isso, eles poderiam perecer por um sopro, perseguidos pela justiça e arrebatados pelo vento de vosso poder; mas, dispusestes tudo com medida, quantidade e peso.

(Sabedoria 11:20)

Que aquele que procura nunca deixe de procurar, até encontrar. E quando encontrar ficará perturbado. E estando perturbado, ficará maravilhado. E reinará no Todo.

(Evangelho Apócrifo de São Tomé)

O que é Deus? É longitude, largura, altura e profundidade.

(São Bernardo de Claraval, De la consideración)

A geometria sagrada foi uma ferramenta essencial para a arquitetura medieval, simbolizando a harmonia e a ligação entre o humano e o divino. Os construtores medievais empregaram esses princípios para criar espaços que não apenas fossem funcionais, mas que evocassem uma experiência espiritual. O objetivo era alinhar a construção com as leis do cosmos, simbolizando ordem divina e harmonia.

Este ensaio explora o uso da geometria sagrada pelos Templários, exemplificado em suas estruturas, tais como, a Igreja da Santa Maria do Olival, a Igreja de São João Baptista e a Charola de Tomar. Também se analisa a cruz templária, símbolo central da ordem, e como ela incorpora e expressa os princípios da geometria sagrada.

Para a Ordem dos Templários, o número oito possuía um significado sagrado, representado através do octógono que é uma forma geométrica profundamente ligada ao simbolismo templário, tanto na sua arquitetura quanto em seus ideais espirituais. Com oito lados, essa figura representa o equilíbrio, transição e regeneração espiritual, ideias centrais para os Cavaleiros Templários. A forma octogonal aparece em construções emblemáticas da ordem, conectando elementos de geometria sagrada, do simbolismo cristão e da herança espiritual templária.

Os Templários aplicaram o octógono em suas construções, especialmente em igrejas e castelos. Essa escolha não era apenas prática, mas carregava um profundo simbolismo espiritual. No oratório do Castelo de Tomar, um dos exemplos mais emblemáticos da arquitetura templária, com sua planta centralizada, com base octogonal, conforme se observa na figura 1, reflete a influência da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, e aqui o octógono se torna o símbolo de conexão entre o céu e a terra. É um espaço de contemplação espiritual unindo os ideais de sacralidade, simbolizando a conexão direta entre Deus e os homens.

Na figura 2, podemos observar as características arquitetónicas sendo, “a Charola, em estilo românico-siríaco, tem no seu centro um esbelto corpo de forma prismática, com oito faces que, conforme nos indica o número sagrado “oito”, parece induzir em quem a mira, uma sensação de deslumbramento e de uma ligação ao mundo espiritual.”(1) A representação do octógono pode ser inserido na circunferência, e simbolicamente pode-se considerar que na intersecção das diversas linhas que o atravessam, ter-se-á a imagem do Homem, o ser transformado que superou a sua dimensão humana e se uniu a Deus. (2)

Uma outra forma dentro do simbolismo que permeia este ensaio, é a dupla espiral simbolizando o movimento perpétuo da vida e o infinito, representado na linguagem matemática do 8 na horizontal. Espacialmente, o número oito é sinal do equilíbrio cósmico e símbolo da renovação, do renascimento ou da beatitude. Este símbolo especial, representativo do infinito, pode ser percebido na lápide de D. Gualdim Pais junto a capela onde repousam seus restos mortais.

O número de oito beatitudes ou princípios significa a sabedoria infinita sob múltiplas formas. A devoção dos Templários às oito bem-aventuranças evangélicas, destaca seu compromisso espiritual e religioso. A interseção entre matemática e espiritualidade, portanto, revela a profundidade e o simbolismo do número oito em diferentes tradições e ordens, demonstrando seu impacto duradouro na busca pelo conhecimento e pela iluminação.

De certo modo tem-se que a importância do número oito para os templários torna-se essencial como chave simbólica do equilíbrio e harmonia entre o quadrado da Terra e o círculo do Céu, segundo Tim Wallace-Murphy, em sua obra “O Código Secreto dos Templários”, o Papa Eugénio III, em 1147 concede aos templários a cruz conhecida como “Cruz das Oito Beatitudes” (3). Sendo o significado das oito beatitudes correspondente a:

1ª Beatitude – Possuir contentamento
2ª Beatitude – Viver sem malícia.
3ª Beatitude – Chorar os seus
4ª Beatitude – Humilhar-se ao ser
5ª Beatitude – Amar a justiça.
6ª Beatitude – Ser
7ª Beatitude – Ser sincero e puro de coração.
8ª Beatitude – Tolerar com paciência as perseguições

Esta é uma cruz de meditação no seu aspeto geométrico, que serve de chave para a construção e decifração do alfabeto secreto dos Templários. Esta chave está, por sua vez, montada numa outra chave de origem hebraica, que nasceu de um alfabeto secreto utilizado pelos cabalistas.

Os templários utilizavam princípios matemáticos avançados, incluindo a proporção áurea, para projetar suas construções. A proporção áurea, ou também denominado “número de ouro”, possui um valor aproximado de 1,618, sendo uma constante matemática encontrada na natureza e considerado um símbolo de beleza e harmonia. Este número também é tido como o limite matemático da Sequência de Fibonacci, subentendendo-se que a criação da natureza é resultado de uma equação matemática complexa que Deus, o Criador desenvolvera para ser a chave sagrada para a abertura dos mistérios do Universo.

Na figura 5, que representa a frontaria da Igreja de São João Baptista em Tomar (4), na torre tem- se a presença de um prisma de base quadrada (Terra) sob o qual se assenta o sineiro, em forma de prisma octogonal com suas respetivas arestas a encontrar com os vértices de uma pirâmide de base octogonal, como um indicativo através da continuidade desta estrutura da ligação entre a terra e o céu, entre o mundano e o espiritual.

A igreja de Santa Maria do Olival, na figura 6, além de ser um exemplo emblemático de arte gótica, no que concerne aos preceitos da geometria sagrada, pode-se verificar a presença em sua frontaria de padrões geométricos que nos leva a repensar a relação do homem com o divino, quando observamos a grande rosácea e nela podemos perceber a integração do octógono, símbolo de transição, transmutação e mais ao centro o quadrado, representativo da condição mundana do homem e envolvendo estas figuras tem-se o círculo, o divino, o sacro.

Nas figuras 6a e 6b, tem-se o pentagrama, este símbolo já era utilizado em Portugal, visto que se apresenta no “dinheiro” cunhado por D. Afonso Henriques em seu anverso, na figura 7.

Ainda considerando a construção em si, no caso da Igreja de Santa Maria do Olival, segundo Luis Alves Costa (5), “A sua planta não se insere no que é normal nas construções românicas ou nas da viragem do Românico para o Gótico, sempre associadas ao Retângulo de Ouro, no desenho da sua estruturação.” Este autor, partindo da planta adquirida através de levantamento realizado pelo Monumentos Portugueses, apresenta algumas abordagens interessantes relacionadas ao conceito de geometria sagrada e a construção desta igreja.

Além do octógono presente em suas construções, o pentágono era outro elemento geométrico utilizado, com menos ênfase. Devido a este elemento ser um representante geométrico do número 5, para os Templários, Cardoso sugere que “… é o número da cultura e a essência de tudo o que tem existência material e por isso podia ser apercebido por nossos 5 sentidos. Representava também o pentagrama, onde eram envolvidas figuras simbólicas, e simbolizava ainda, as 5 chagas de Cristo.” Pelas análises de suas construções e dos vários escritos sobre o tema, pode-se entender que os Templários utilizavam a geometria como sua língua construtiva, de modo que em todas as suas obras o significado das formas transcendia seu simples formato tendo embutido um propósito bem definido. Considerando que ainda em nossos dias, a proporção áurea nos dá um sentido de proporção para a beleza e harmonia, nos eleva para sentir a manifestação de um estado superior, sendo o pentágono uma das formas regulares planas que possuem esta relação áurea.

Vários autores que escrevem sobre os Cavaleiros do Templo indicam que estes deixavam impresso em pedras as mensagens que não podiam ser transmitidas verbalmente. Partindo deste pressuposto, Costa apresenta uma análise interessante sobre a estrutura da Igreja de Santa Maria do Olival.

As figuras 8a e 8b representam a fachada obtida através de desenho encontrado em Santos (6). 

Os desenhos aplicados sobre a fachada na figura 8b, atendem a regra de ouro utilizada para a construção do retângulo áureo, indicando este elemento como base para definir as dimensões da fachada da igreja. Mas não para definir o posicionamento dos outros elementos que compõe esta fachada, assim, podem-se observar nas figuras 8c e 8d, uma outra abordagem através da sobreposição do pentágono e pentagrama sobre a fachada.

Nesta abordagem, podemos definir a posição para rosácea e disposição das janelas na frontaria da igreja bem como o posicionamento do pentagrama envolvido pela rosa sob a entrada. Podemos entender a partir dessas abordagens que em quase todas as edificações templárias há algum sinal ou mensagem esotérica nos convidando a decifrá-la e meditar sobre sua finalidade neste plano.

Ainda considerando os códigos esotéricos (7), há outro número sagrado, o número três, de acordo com Cardoso, esteve presente na regulamentação da vida dos Templários (se alimentavam 3 vezes ao dia, possuíam 3 cavalos, lutavam contra 3 inimigos em batalhas, jejuavam 3 vezes ao ano, …).

A geometria sagrada desempenhou um papel crucial na arquitetura templária, refletindo a profunda conexão entre o terreno e o espiritual. As formas geométricas como o quadrado, o triângulo e o octógono não eram meramente decorativas, mas incorporavam significados esotéricos que guiavam os templários em sua missão divina. O uso dessas formas simbolizava estabilidade, perfeição divina e a transição entre o mundo material e o espiritual, criando espaços que eram, ao mesmo tempo, funcionalmente eficientes e espiritualmente inspiradores.

A aplicação da geometria sagrada nas estruturas templárias permanece como um lembrete constante de seus votos e devoções, integrando a disciplina militar com a vida monástica. Estes edifícios não eram apenas fortalezas físicas, mas também fortalezas de fé, projetadas para resistir ao tempo e talvez inspirar gerações futuras.

Em resumo, a geometria sagrada nas construções templárias é um testemunho duradouro da habilidade dos templários de unir o prático e o espiritual, criando um legado arquitetónico que continua a fascinar ainda em nossos dias. Ao estudar essas estruturas, ganhamos uma perceção mais profunda das intenções e das crenças dos templários, revelando a complexa tapeçaria de símbolos e significados como uma das questões fundamentais para a Ordem dos Cavaleiros Templários.

Cláudio Corrêa – Comenda Templária de Soure, OPCTJ

Fontes

1 Esta passagem encontra-se no capítulo V, página 63 da obra “Templários em Tomar” de José Armando Vizela Cardoso.
2 “Templários”, volume 4 de Eduardo Amarante.
3 Esta cruz também foi utilizada pelos Cavaleiros Hospitalários e Teutónicos.
4  https://www.vortexmag.net/12-fantasticos-locais-para-visitar-em-tomar/
5 Igreja de Santa Maria do Olival, As Mensagens Secretas da Arquitetura Templária.
6 Ricardo Santos. “Os Princípios de desenho e forma na arquitetura portuguesa. O ornamento como elemento de mediação: do plano da fachada para a abertura”, Universidade do Porto. Workshop de Estudos Medievais. 2013-2014, p. 119-131.
7 Templários em Tomar, capítulo IV: A Extraordinária Obra dos Templários, p. 41-42. José Armando Vizela Cardoso, 2017.

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