Primórdios da aldeia
O castro
O território de Algosinho, agora pertencente à freguesia de Peredo da Bemposta, no concelho de Mogadouro (outrora integrou o extinto concelho de Bemposta, que actualmente também pertence a Mogadouro), é povoado desde tempos remotos. As marcas dessa ocupação encontram-se materializadas em diversos sítios arqueológicos que referiremos muito resumidamente. Existem no seu termo ruínas de um assentamento castrejo, designado por “Castelo do Mau Vizinho” ou “Castelo dos Mouros”. Segundo o Abade de Baçal, esta estrutura fortificada, característica da Idade do Ferro, teria um campo de pedras fincadas, um fosso e uma muralha com cerca de um metro de espessura. A existência destas três estruturas defensivas pode ainda observar-se noutros castros da região, nomeadamente em Vilarinho dos Galegos. Atendendo à facilidade de acesso ao castro a partir do Sul, percebe-se a existência e necessidade destas medidas defensivas. Infelizmente, já não são observáveis, devido à quase completa destruição do local, onde apenas sobrevivem alguns montes de pedra derrubada.
O lagar rupestre
A cerca de 800 metros da povoação, para Sul, existe um lagar escavado na pedra, em perfeito estado de conservação. Possui o “calcatorium” e o “lacus” ainda intactos. Tem igualmente nos lados vestígios de ali haver existido uma estrutura de suporte, muito provavelmente em madeira, que auxiliaria no esmagamento dos frutos. Desconhece-se a sua cronologia. À semelhança de outros existentes nas vertentes do rio Douro, há quem afirme serem de cronologia romana ou medieval. Devido à ausência de outros materiais arqueológicos que permitam uma melhor localização cronológica, persiste a legítima dúvida.
Assentamento romano
Os estudiosos atrás referidos mencionam a provável existência de um assentamento romano situado entre a actual localização da aldeia e o castro. Para sustentarem essa ideia, referem a existência de diversos materiais arqueológicos dispersos pelas redondezas. Nalguns muros que delimitam as propriedades rústicas da área em questão são observáveis alguns fragmentos de pedras trabalhadas, como sejam colunas de granito, por exemplo.
No interior do templo local encontram-se guardados dois fragmentos de lápides romanas, em mármore, sem inscrições observáveis, devido ao seu estado de destruição.
A necrópole rupestre de Santo André
A cerca de 200 metros a Oeste do actual povoado, encontra-se um conjunto de cinco sepulturas escavadas na rocha. Algumas possuem contornos antropomorfos no seu interior, nomeadamente com os contornos da cabeça e dos ombros. Uma delas seria de bebé. Relativamente às sepulturas escavadas na pedra, “a discussão em torno da sua cronologia e tipologia continua a dividir investigadores. As mais recentes investigações baseadas em datações radiocarbónicas sobre vestígios osteológicos apontam para uma diacronia de utilização destes monumentos que se estende entre os séculos VII e XI.” [1]
Lenda dos Cavaleiros da Espora Dourada
As memórias paroquiais respeitantes a Algosinho, no séc. XVIII mencionam a existência da lenda dos “cavaleiros da espora dourada”. Muito embora Viterbo nos ensine que estes cavaleiros eram os segundos ou terceiros filhos das famílias nobres (que eram uma espécie de mercenários), não nos parece que nesta zona tão remota e desprovida de famílias nobres florescessem por cá semelhantes indivíduos, pelo que nos parece legítimo associar esta lenda à presença dos cavaleiros Templários nestas paragens.
A Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Algosinho
A igreja de Nossa Senhora da Assunção de Algosinho, onde nos encontramos é um exemplar perfeito do chamado “tardo-românico”, pois apesar da sua configuração austera e dos elementos decorativos, nomeadamente os modilhões, apontarem no sentido de se tratar de uma igreja de estilo românico, a verdade é que estamos perante elementos que já se aproximam do estilo gótico, nomeadamente a existência de arcos de volta quebrada.
Um outro pormenor que chama a atenção é o facto de as bases das colunas serem redondas e os pilares serem rectangulares. Isso, leva-me a concluir que se trata de uma construção sobre outra preexistente, muito provavelmente de cronologia romana, atenta a sua inquestionável presença neste sítio.
Algosinho nas memórias paroquiais de 1758
O memorialista do séc. XVIII, padre António Guerra, deixou escrito que Algosinho “tem a igreja matriz e a paróquia distante do lugar três tiros de espingarda e nela se nam interra gente por ser o lastro de pissarra.” O orago desta igreja é Santo André e tem três altares. Além desta, tem uma igreja fora do lugar um tiro de espingarda. “E tem de grandeza quatro tantos da matriz e esta com munta fortaleza, pois toda hé de cantaria. Tem três arcos de cantaria lavrada e tem três altares e o altar mor hé de Nossa Senhora d’Assumssam, orago desta igreja. E tem irmandade jubileus no ano coatro por Bula de Sua Santidade que tem ahi uma imagem muito fermosa e nos outros dois altares em hum tem o Santo Cristo e no outro Nossa Senhora do Rosário. E nesta igreja se interram os defuntos e se diz missa conventual aos freguezes.”
“Conta-se e se acha em archibos que deste lugar sahiram muitos cavalleiros de espora dourada por vertude de armas e que antiguamente fora villa populoza.”
“Acha-se hum castelo neste lugar antíguo e forte, com seus muros e portas atuídos e desbaratados e paredes derrubadas. Distancia do povo seis tiros de espingarda à parte do nascente (…) e alguns coriozos o tem minado e derrubado para ver se acham nele tesouros de ouro ou prata.”
Tem moinhos e pisões ao longo da ribeira, que só funcionam no Inverno. Os moradores colhiam muito centeio e trigo, vinho pouco e azeite nada.
Os elementos que apontam para a origem templária na Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Algosinho – Mogadouro
Os nove degraus
No que à associação deste austero, antigo e imponente templo à sagrada Ordem Templária, permitimo-nos reparar num pormenor fundamental: os nove degraus que decoram a entrada (que agora são 11 por terem sido aumentados durante as campanhas de restauro da igreja, como facilmente se constata através da observação do desgaste das pedras). Estes nove degraus simbolizam, sem sombra de dúvida os nove cavaleiros que fundaram a nossa Ordem.
O sino saimão
Além do mais, como é perfeitamente visível, a frontaria deste templo encontra-se decorada por um hexalfa (ou hexagrama, ou estrela de seis pontas), também conhecido por sino saimão. Muito embora haja quem entenda que se trata da estrela de David, associada aos judeus, em contraponto com o pentalfa, esse sim associado aos Templários, permito-me discordar.
Efectivamente, o hexalfa é encarado pela tradição, tal como o pentalfa, como o sino saimão (corruptela popular da designação Signum salomonis – Selo de Salomão). E o sino saimão aparece muitas vezes associado à simbologia templária, como por exemplo em monumentos funerários encontrados nesta região, nomeadamente numa cabeceira de lápide que tem a cruz pátea de um lado e o pentalfa do outro.
A propósito do sino saimão e do hexagrama, vejamos o que nos dizem Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, no seu “Dicionário dos Símbolos”:
“Esta figura, feita de dois triângulos equiláteros sobrepostos, um apontado para cima, outro para baixo, de forma a que o conjunto constitua uma estrela de seis pontas, é uma das representações simbólicas mais universais. Encontramo-la na Índia sob o nome de lantra; entre os hebreus, cristãos e muçulmanos sob o Selo de Salomão. (…) Na filosofia hermética, representa a síntese das forças evolutivas e involutivas pela interpenetração dos dois ternários. A tradição indiana vê nisso a hierogamia fundamental. Em termos psicológicos, para a escola junguiana, esta união dos contrários simboliza a união dos mundos pessoal e temporal do Eu com o mundo não pessoal, intemporal do não-Eu.”
A cruz pátea
No interior da igreja encontra-se depositada uma pedra com a gravação em baixo relevo de uma cruz pátea. Esta peça, pela sua configuração física indicia que se tratava de uma pedra de fecho de um arco. Muito provavelmente deve ter “sobrado” de alguma das muitas campanhas de restauração a que o templo já foi sujeito, tal como se pode observar noutros templos objecto de obras, nomeadamente em Azinhoso, por exemplo.
As portas laterais
O templo de Algosinho possui duas portas laterais, largas, orientadas a Norte e Sul, respectivamente. Há quem defenda que estas estruturas se destinavam a permitir a entrada no interior do templo pelos cavaleiros e das suas montadas, pois o cavaleiro considerava a montada como uma extensão do seu próprio corpo. Outros estudiosos negam categoricamente esta hipótese, pois os animais nunca poderiam pisar solo sagrado. Mesmo sem nos posicionarmos quanto a esta questão controversa, não podemos deixar de reparar que esta igreja, ao contrário de outras coevas sitas na mesma região, não possui os habituais obstáculos à entrada de animais posicionados em frente às diversas entradas.
Conclusão
Por tudo o que se vem demonstrando permito-me concluir, sem grande margem para dúvidas, que estamos perante claríssimos e fortes indícios de que nos encontramos no interior de um santuário marcadamente Templário, possivelmente mandado erigir pelos Cavaleiros da Comenda de Mogadouro num passado remoto, quando por aqui pontuaram no governo destes territórios.
Antero Neto – Comenda de Mogadouro e Penas Róias (OPCTJ)
(Palestra proferida no âmbito do Capítulo Local da Comenda de Mogadouro e Penas Róias, da “Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Jerusalém”)
Algosinho, 4 de Novembro de 2023
Notas
[1] CÉSAR GUEDES, “As sepulturas escavadas na rocha e as leituras possíveis de um território a Sul do Douro”, Genius Loci – Lugares e Significados, vol. II, Universidade do Porto.


