O gosto do maravilhoso fervilha no fundo de cada homem, que marcado pela alma humana confere à religiosidade popular uma função sobrenatural, dando um sentido divino aos factos cuja explicação fuja à norma.
Em todos os tempos e culturas isso acontece, mudando apenas os lugares, os acontecimentos e as circunstâncias, que talham e modelam o pensamento e a alma.
Das romarias realizadas no concelho de Idanha-a-Nova, em Honra da Nossa Senhora, a romaria da Nossa Senhora da Azenha, possui características originais.
O local onde se situa o Santuário, a 10 km a Norte de Monsanto da Beira é conhecido como Azinhal, local de fascinante beleza, paz e quietude.
As Lendas da Sra. da Azenha, justificam a construção da Capela e a explicação do culto a Nossa Senhora:
“Conta-se entre o povo que um dia um pastor que guardava um rebanho no sítio do Azinhal encontrou na toca de uma azinheira, o que julgou uma bonequinha. Tendo duas filhas e achando a bonequinha muito linda levou-a para a tchoça e ofereceu-a como brinquedo às filhas. No dia seguinte a bonequinha tinha desaparecido. Estava na toca onde o pastor a encontrara. Tornou o pastor a levar para casa, tendo durante a noite acontecido a mesma coisa, a bonequinha tinha regressado à toca da azinheira.
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O pastor ao ver este mistério, foi contar o sucedido às gentes da Vila, que adivinharam ser Nossa Senhora. Construíram então uma capela junta da Azinheira onde a imagem fora encontrada, contando os antigos que na parede do altar estão os restos da azinheira”.
Será esta uma das lendas.
Embora não reconhecido pela Igreja dos primeiros séculos, o título de “Mãe de Deus” dado a Maria começou muito cedo entre as comunidades cristãs, materializando o respeito pela mãe de Cristo. Data do séc. III a mais antiga oração Mariana, de nome Sub tuum praesidium.
O reconhecimento chegou dois séculos mais tarde, com a proposta pelo Patriarca de Alexandria, Cirilo no Concílio de Éfeso em 431.
Para alguns estudiosos, o facto de o Concílio ter sido efectuado em Éfeso, (lugar Sagrado da antiguidade e o grande centro dos velhos cultos a Diana, ou Artémis e situada no país onde tinha nascido e florescido o velho culto à Mãe dos Deuses), tinha como objectivo a atribuição do título Mãe de Deus a Maria revela fortes ressonâncias de antigos cultos femininos. É também demonstrativo de como o Cristianismo dos primeiros tempos assimilou elementos vários das religiosidades populares pré-cristãs que floresciam nos territórios onde se verificou a sua mais antiga expansão.
Teremos então presente um culto muito antigo que remonta a épocas pré-romanas e dentro desta linha de interpretação a proliferação de pequenas capelas dedicadas a Nossa Senhora, sob as mais diversas invocações por toda a Península Ibérica assentando em regra em antigos Santuários Pagãos.
A poucos metros da ermida da Senhora da Azenha abundam vestígios de ocupação romana, restos de colunas, pedras almofadadas e mós que se amontoam, encontrando-se em Penha Garcia parte de uma ara truncada, encontrada nas proximidades. Poderá também a capela ter sido contruída sobre um antigo templo pagão e o culto de Nossa Senhora da Azenha substituído um culto de uma muito antiga divindade feminina?
O culto actual
Na Terça-feira após a Páscoa, realiza-se a Festa das Cruzes de Monsanto à Sra. da Azenha, onde o povo de Monsanto parte para o Azinhal (local se encontra a capela). Partem sem pendões, nem cruzes, nem padre como outrora acontecia, apenas o povo com os cestos onde se guardam os farnéis. A chegada ao Azinhal é pelo meio dia, onde se realiza uma missa e uma procissão pelo terreiro em redor da capela. A imagem da Sra. da Azenha que sai é a nova comprada pelo padre José Augusto Ribeiro, na década de 40, contra a vontade do povo e que permanece todo o ano na capela.
No dia da Quinta Feira da Ascensão, 39 dias após a Páscoa, o povo de Penha Garcia ruma em direcção à capela da Sra. da Azenha, tendo a antiga data do séc. XVIII do terceiro domingo de Maio abandonada por determinação do padre António dos Santos Rolo.
A escolha desta data prendeu-se com a salvaguarda da continuidade da celebração da Festividade da Ascensão, depois que a alteração da lei fez desaparecer este feriado. É assim esta celebração móvel, mas caindo sempre na Primavera.
Partem de manhã cedo grupos de romeiros em direção ao Santuário, rezando o Terço e cantando o Bendito. Concentram-se na Capela do Espírito Santo, levando à frente o pendão da Nossa Senhora da Conceição. Em tempos antigos juntavam-se-lhes grupos de Alcafozes e Monsanto.
Após a missa na Quinta Feira da Ascensão e aos ombros dos homens a senhora da Azenha dirige-se para o lado Sul, para Monsanto. As preces dos romeiros dirigem -se para novos anseios: renovação da vida, paz, saúde e segurança para todos os presentes e ausentes. Os mais velhos recordam esta quinta Feira da Ascensão como a Quinta Feira da Espiga.
Após a chegada ao Cruzeiro, junto ao rio Ponsul, dá-se a primeira paragem com a despedida a Penha Garcia. O adeus dá-se com a travessia do Ponsul com a Senhora da Azenha às arrecuas aos ombros dos homens de Monsanto.
A procissão vai sem padre. Apenas o povo conduz a imagem da senhora até Monsanto de arrecuas até á paragem da azinheira Grande. Após várias paragens finalmente a imagem entra finalmente na Igreja Matriz de S. Salvador em Monsanto, terminando o dia com a celebração da missa.
O Rito terá sido preservado quando em Quinta Feira da Ascensão os homens de Monsanto iam buscar a Senhora à capela do Azinhal, fazendo-se acompanhar de uma mulher, a mãe ou a esposa de um deles. Faltando uma dessa mulheres iam buscar a mulher de um pastor. Exigia uma tradição muito antiga que uma mulher estivesse presente quando retirassem Nossa Senhora do Altar.
O grande dia da Sra da Azenha está atualmente fixado no segundo fim de semana de Setembro.
Celebra-se muito cedo a missa na Igreja de S. Salvador e ruma-se à capela da senhora da Azenha com uma procissão até ao cruzamento de S. Lázaro, onde num altar improvisado se faz uma oração à virgem e as gentes de Monsanto se despedem da senhora visitante.
A partir de S. Lázaro e sem pároco retoma-se o rumo em direção ao Azinhal. O caminho é longo, cerca de 10km, com paragem obrigatória na velha Fonte da Devesa.
A multidão de peregrinos vai aumentando a cada lugar atravessado, havendo nesta peregrinação um estranho encantamento.
A Senhora Caminheira, é sem sombra de dúvida, a luz criadora que envolve a esperança e as almas. É a luz dos dias, na roda do ano, a luz de um farol ancorado no porto do seu santuário onde, na festa de cada Setembro, se retorna em busca do calor vivificador das raízes.
Carlos Gomes – Comenda de Idanha (OPCTJ)
8 de Setembro de 2023
Bibliografia
- SALVADO, Maria Adelaide Neto (2001J – Nossa Senhora da Azenha: a luz da Raia. Idanha-a-Nova: Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.


